O Ibama sob as botas do capitão Jair

Pesquisa realizada pela Folha revela que o papel de fiscalização do Ibama tem se tornado cada vez mais irrelevante no governo Bolsonaro. De acordo com o estudo, no primeiro ano de seu governo o número de multas aplicadas caiu 34% em relação ao ano anterior. A queda é registrada quando há uma escalada vertiginosa do desmatamento na Amazônia.

De agosto de 2018 a julho de 2019 a destruição da floresta alcançou 9762 km² em relação ao período anterior, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). É o maior já registrado em uma década. Os números representam quadro desolador, mas não causam surpresa. A situação, claro, é consequência direta do desmonte do aparato de proteção ambiental promovido por Bolsonaro – a começar pelo Ministério do Meio Ambiente, que vive a pão e água e com vários postos de comando em aberto.

Some-se a isso o discurso do presidente contra a fiscalização, com a justificativa de remover obstáculos ao crescimento. Uma insanidade, o que também não é uma novidade no perfil do personagem. Sua guerra contra o Ibama, entre tantas outras, começa quando ainda era um legítimo representante do baixíssimo clero na Câmara.

Lembro de certa época liderar a Comissão de Meio Ambiente e ter de negar seus pedidos intermitentes de liberação de certa área de Angra dos Reis para pescaria. “Peninha, é só pra pescar um peixinho, Peninha”. Não adiantou. Acabou multado depois de flagrado por um fiscal pescando nas águas de Angra.

Essa obsessão de Bolsonaro em pôr a varinha onde não deve – e que por dever constitucional deveria preservar – deu no que deu: eleito mandou anular a multa, além de pedir a cabeça do fiscal que ousou multá-lo, e a partir daí abriu a porteira pra a barbárie ambiental.

A política do desmonte tem levado pânico à linha de frente do combate ao desmatamento na Amazônia. Sem a cobertura do Exército e da Polícia Federal os agentes do Ibama não raramente são recebidos a tiro pelos contraventores. O desmando é de tal ordem que, na semana passada, um deputado da turba bolsonarista arvorou-se em chefe do pedaço e decidiu impor a sua ordem. Munido de motosserra, decidiu cortar a corrente de controle de tráfego da BR 174, que liga Manaus a Boa Vista, em plena terra dos Waimiri Atroari, área demarcada em homologada em 1989. Em nome do presidente e, repetindo o discurso oficial para a própria câmera, bradou que dali em diante não haveria mais “atraso” em seu estado.

Esse clima de terra de ninguém tem contaminado o país de cima a baixo e sinaliza reações da comunidade internacional. Dias atrás o embaixador alemão no Brasil revelou o estado de ânimo dos noruegueses, parceiros majoritários dos alemães no Fundo da Amazônia, destinado à redução desmatamento e preservação da Amazônia e paralisado pela inépcia do governo brasileiro: “A Noruega está de saco cheio.” Nós também.

Deixe uma resposta