Um dia de caos e a fraude que elegeu Bolsonaro

Em meio à hecatombe do sistema financeiro internacional, contaminado pelo coronavírus – e levado à lona pela guerra comercial entre Rússia e Arábia Saudita –, Bolsonaro lançou uma bomba pensando em concorrer com as manchetes do dia. As eleições de 2018, pelas quais ele próprio foi eleito presidente, teriam sido fraudadas. Sim, de acordo com o capitão 00, se não fosse o gato instalado nas urnas ele já teria sido eleito em primeiro turno.

A “revelação”, com a promessa de apresentar provas da gatunagem “em breve”, foi feita para uma crente plateia de simpatizantes de uma comunidade evangélica brasileira em Miami. Claro que a jogada não colou, a não ser junto às suas milícias virtuais. No máximo rendeu uma nota da presidente do TSE, Rosa Weber, assegurando a confiabilidade do sistema.

Bolsonaro foi além. Sugeriu que o Congresso refletisse sobre a manifestação convocada pela sua turba de simpatizantes e devolvesse o para o Executivo os 15 bilhões de dólares do orçamento impositivo a fim de aplacar o clamor das ruas. Chantagenzinha barata.

Já é manjada a tática diversionista do capitão diante de qualquer tema ou situação espinhosos. Na semana passada Jair até tentou inovar, servindo de escada para um comediante, no mesmo cercadinho junto ao Palácio da Alvorada, onde costuma dirigir impropérios e ofensas aos jornalistas para deleite de sua claque habitual.

Com a mis en scène o capitão tentava satirizar a notícia então recém saída do forno de que o PIB do ano passado não passara de mísero 1,1%. “Diz aí o que é PIB”, debochava Jair, enquanto o protagonista Carioca mandava banana para a imprensa parodiando o capitão. Certamente uma cena grotesca criada na medida para a posteridade.

O grau de alheamento de ontem, porém, saltou aos olhos. Com o caos estabelecido pelo derretimento das bolsas ao redor do mundo, o real se esfacelando frente ao dólar e a economia que não anda nem a pau – e tende a piorar nesse cenário — Bolsonaro preferiu tangenciar o assunto para mesma plateia, dizendo que o mundo estava superdimensionando a crise. Com isso só conseguiu reforçar a suspeita de que o barco está sem rumo.

E ele não está sozinho nesse alheamento. Chamado à cena, Paulo Guedes mandou a bola de primeira para o Hemisfério Norte. “Estamos absolutamente tranquilos e serenos. O mundo todo já estava em desaceleração. O coronavírus foi só a gota d´água. Nós vamos transformar crise em crescimento.”

Guedes deveria sugerir o remedinho que anda tomando ao secretário do tesouro, Mansueto Almeida, que já não dorme por causa da paralisia da economia: “Não é normal para um país como o Brasil crescer 1% ao ano”. Mas para o superministro da Economia a saída está nas reformas, repetindo a lengalenga cotidiana. “Não basta”, rebate Rodrigo Maia, que espera que o governo tome medidas de curto prazo e possa reverter o quadro de inanição da economia e não contar só com suposição futura.

Reformas. 1- Maia lembra que tanto a administrativa como a tributária sequer foram enviadas ao Congresso. 2- Bolsonaro não tem base parlamentar. E a cada dia cresce o fosso entre o Planalto e o Legislativo, cavado pelo tresloucado JB, o capitão 00.

Jair aposta nas manifestações do dia 15 para emparedar o Congresso e o Supremo. Se Jair sonha em atribuir-se poderes ditatoriais e governar de braços dados com o povo é bom lembrar que primeiro ele deve ter base popular e a economia navegar em mar de almirante. Não há uma coisa nem outra no horizonte. O dia 15 pode sair pela culatra. Até porque há manifestações programadas por contras na véspera e nos dias seguintes.

É pagar pra ver.

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