“A política econômica de Guedes é liberalismo primitivo”

Um toque sobre macroeconomia – em especial aos aficionados da política liberalóide de Paulo Guedes. A atual política econômica baseia-se num liberalismo primitivo, o laissez-faire dos anos 1960/70. A avaliação é do economista André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real e ex-presidente do BNDES. Laissez-faire é expressão francesa usada para o deixa rolar, que designa o clássico liberalismo econômico, segundo o qual o mercado é soberano para agir livremente sem qualquer interferência ou subsídio por parte do Estado.

Para ele a ideia de que liminar o papel do Estado da economia e equilibrar as contas públicas é suficiente para que investidores privados readquiram a confiança e a economia volte a crescer é um duplo equívoco.

Em entrevista à Folha, Resende sustenta que, “no mundo contemporâneo, a ação de um Estado competente, tanto para garantir serviços públicos de qualidade, como para garantir o bom funcionamento da economia competitiva, é indispensável.”

E é taxativo: “Tentar equilibrar as contas públicas, no curto prazo e a qualquer custo, asfixia o setor privado com impostos distorcidos, inviabiliza os investimentos públicos e paralisa serviços básicos. Não há recuperação possível nessas condições.”

Diante de um cenário de estagnação da economia brasileira, que mantém crescimento irrisório por três anos, e agravada pelo pânico global provocado pelo coronavírus, Resende faz coro com as vozes que pedem medidas emergenciais. “O tema do coronavírus ressalta a imperiosa necessidade de aprovar verbas emergenciais para a saúde”, ele analisa. Cortar num momento como esse, ‘para compensar as perdas de receitas do petróleo’, beira o surto psicótico”, diz ressaltando que a Covid19 vai provocar um baque na economia mundial, e por isso defende uma atuação mais inteligente por parte do Estado, já que os bancos centrais têm pouco a fazer quanto aos juros.

Autor de Consenso e Contrassenso – Por uma Economia não Dogmática, lançado no mês passado, Resende defende a revisão de teses hegemônicas do liberalismo. “Reconhecer que o governo não tem restrição financeira e que deveria fazer uso dessa faculdade para investir, de forma inteligente e produtiva, quando há desemprego, capacidade ociosa e flagrante carência de todo tipo de serviços públicos não é exatamente uma pauta revolucionária. Muito pelo contrário, é a receita keynesiana clássica, que pautou a política econômica do pós-guerra.”. Assim nessas circunstâncias, segundo ele, “o aumento do gasto público não compete com o gasto privado, pelo contrário, pode levar à recuperação do emprego e da renda.

Resende vê o Estado brasileiro “inchado, burocrático e patrimonialista, apesar de alguns focos de excelência. “Mas asfixia-lo, ele diz, “e achar que ele jamais será competente”, faz parte de “uma visão forjada durante os anos da Guerra Fria, hoje flagrantemente anacrônica.”

Por fim, o economista adverte para o risco de a falência do Estado (failed state). “Presenciamos uma situação em que o crime se politiza e a política se criminaliza. Podemos caminhar para uma Venezuela.”

Em tempo: o sistema financeiro internacional vive mais um dia de pânico nesta segunda-feira, com a queda vertiginosa nas bolsas da Europa, Ásia e Estados Unidos, além de nova derrubada nos preços do petróleo. Principal índice da bolsa brasileira, o Ibovespa registrou um curto circuito logo na abertura, com tombo de mais de 12 pontos, o que provocou paralisação imediata de 30 minutos.

Às 14h15 acusava nova queda de de mais de 11%. Isso depois que o Conselho Monetário Nacional ter aprovado, em reunião extraordinária, medida para facilitar e negociação de empresas e famílias e a liberação de 637 bilhões para bancos oferecerem em crédito.

A Febraban respondeu logo depois em nota, confirmando que os cinco maiores bancos concordaram em prorrogar as dívidas por 60 dias para famílias, micro e pequenas empresas. Desde que todas, é claro, estivessem em dia com os pagamentos.  

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