Bolsonaro e a falácia que contamina

Definitivamente não há limite para a estupidez e o oportunismo do atual inquilino do Planalto. Leio na Folha que o capitão Bolsonaro está insatisfeito com o tom que Mandetta tem adotado na guerra contra o novo coronavírus. E quer que o ministro da saúde afine seu discurso de acordo com o diapasão bolsonarista.

Se há algum bolsão de competência e inteligência estratégica nesse governo – provavelmente o único – é o ministério da saúde. Alicerçado por um sistema de saúde público constituído por notáveis e três grandes centros de excelência na área epidemiológica – Adofo Lutz, Fiocruz e Evandro Chagas –, Mandetta, desde os primeiros sinais emitidos pela China, tratou de traçar um plano que pudesse mitigar os efeitos da disseminação e aliviar o impacto sobre a rede hospitalar. Isso tem sido reconhecido dentro e fora do país.

E, de acordo com protocolos internacionais, acaba de acenar com uma escalada de restrições que vão, em caso extremo, ao isolamento total da população. E é isso que enlouquece o capitão. Incapaz de formular qualquer ideia sobre qualquer tema, Bolsonaro vai na contramão: continua a vender a “tese” de há uma histeria na forma com que se tem tratado o assunto. Histeria, pelo visto, do próprio Mandetta, além de governadores e prefeitos das grandes capitais. E do próprio Trump, seu guru, que deu um cavalo de pau e decretou emergência nacional diante da “ameaça chinesa”.

Bolsonaro não mede consequências. No domingo, suspeito de ter contraído o vírus em viagem aos EUA, foi pra frente do Palácio do Planalto saudar a fauna que saiu às ruas para pedir o fechamento do Congresso e do STF, incentivada por ele próprio. É para ela que ele tem se voltar para supostamente tentar a sorte em 2022. Se  

Por ironia, 17 membros de sua comitiva, que viajou aos Estados Unidos, foram contaminados. O último caso a ser divulgado foi o general do Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional Em resguardo – momento propício para meditação – e diante da evidência do potencial de contágio do novo vírus e a tresloucada ação de seu chefe, que conselho o conselheiro mor de Bolsonaro daria a seu chefe? “Foda-se?”.       

Alguém já sugeriu que o presidente seja submetido a uma quarentena verbal. Outros, como o jurista Miguel Reale Jr (articulador do impeachment de Dilma), a um exame médico para aferir se sua sanidade mental é compatível com o exercício do cargo. A questão é que nada vai demovê-lo de liderar uma cruzada pela barbárie em que tem se constituído seu (des)governo.  

O que está em jogo é a sustentação de sua cadeira. E em desespero vê a economia indo mais uma vez pro vinagre com o impacto global da pandemia. Na véspera já havia o anúncio de que o crescimento da economia para este não deve passar de zero – senão uma contração de 0,1% do PIB no primeiro semestre, como aponta o banco Credit Suisse. Ou seja, uma nova recessão à vista.

A tática do caos, porém, parece que começa a ter efeito contrário. Já pintam sinais de racha em sua própria base. Há indignação em certas camadas da população por enxergar na conduta de Bolsonaro um risco sanitário – e, no limite, crime de responsabilidade – pela participação nas manifestações de domingo. Ex-aliados seus de primeira hora, como Janaína Paschoal, já pedem abertamente que deixe o cargo.

É emblematicamente sugestiva também a abordagem de um jovem haitiano a Bolsonaro, na segunda-feira, junto ao cercadinho do Alvorada, onde reina sua claque. “Acabou Bolsonaro. Você não é presidente mais. Você está espalhando o vírus para os brasileiros. Você não é presidente mais”, repetiu. E, na quarta, a abertura da temporada do panelaço “Fora Bolsonaro”, registrado em horário nobre em pelo menos cinco capitais, veio como um sinal de que o tempo está mudando.

Até onde o sinal alcança? Difícil dizer. Terrível é o pesadelo em que mergulhamos. Pior é imaginar alguém com uma personalidade tão abjeta no comando dos destinos da nação. Faz sentido pensar em expelir logo o que há de tóxico no organismo.

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