A imunidade de manada e a manada em disparada

A pandemia do novo coronavírus tem causado não só um impacto econômico e social gigantesco. Também tem colocado em cheque princípios epidemiológicos. Um deles é o conceito de imunidade de manada (herd immunity) ou imunidade de grupo. A ideia consiste em administrar a propagação da infecção a fim de tornar a população imune.

Segundo essa orientação, um grupo de pessoas, uma vez vacinado, adquiriria imunidade contra certo agente patogênico, tornando todo o coletivo imune, incluindo os não vacinados.

A versão ganhou as páginas dos jornais causando polêmica, há alguns dias, quando um conselheiro do governo de Boris Johnson defendeu o emprego desta estratégia de combate ao vírus no Reino Unido. A questão é que para o caso atual do coronavírus não há vacina. Evidentemente que há modelos matemáticos aplicados que apontam para o declínio da transmissão com base na imunidade adquirida naturalmente.

A Alemanha de Angela Merkel projeta um percentual de 60% a 70% de infectados até que espiral da contaminação comece a retroceder com a imunização do restante da população. Já Mandetta acredita que até um pico de 50% da população brasileira se contamine, em variados graus de gravidade, até que a doença se torne um mal sazonal.

Não é por isso que a melhor estratégia seja o da “afrouxamento” deliberado da contenção. Ao contrário. Taiwan, Japão e a própria Alemanha, associando isolamento com um sistema de testagem em massa – além é claro de contar com um sistema hospitalar preparado para casos mais graves — tem alcançado resultados bem positivos, ao contrário de Itália e Espanha que amargam um caos sanitário.

Em meio à celeuma, porém, um caso veio à tona para embaralhar ainda mais a discussão. Um japonês de 70 anos passou semanas internado em um hospital após ter adquirido a Covid19. Recuperado, o homem teve alta, mas depois de alguns dias voltou a ter febre e buscou atendimento médico mais uma vez. Para surpresa geral o teste a que foi submetido deu positivo para o novamente.

O novo corona metamorfoseou-se? O princípio da imunidade não se aplica a todas infecções – ou pelo menos a essa cepa? A reincidência é um ponto fora da curva?

Em depoimento à BBC News Mundo, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) disse à BBC News Mundo (serviço em espanhol da BBC) manifestou-se alegando que por se tratar de um vírus sobre o qual não se tem informação, aprendemos com ele diariamente. E que não está descartada a possibilidade de uma pessoa contaminar-se duas vezes.

Luis Enjuanes, um pesquisador espanhol do Conselho Superior de Investigações Científicas, arriscou que casos dessa natureza podem estar associados a uma “recuperação” do vírus. Segundo ele, entre as várias hipóteses, é que esse corona “imuniza a população, mas a resposta imunológica talvez não seja suficiente forte.”

Para ele por alguma razão, o agente infeccioso pode ficar alojado em algum “reservatório” (um tecido especial do organismo) e “quando a defesa imunológica cai, ele reaparece”, pondera Enjuanes, para quem existem vírus que podem permanecer no corpo por três meses ou mais.

Para o leigo a impressão que dá é que o clima de barata voa que tomou conta da economia pelo mundo afora também contaminou a área epidemiológica. Aliás, diz-se que há um efeito manada justamente quando investidores fogem da bolsa derrubando ações em cadeia, seja por qualquer razão política, ambiental, socioeconômica ou evento extemporâneo. Seria a disparada da boiada em pânico, como a que temos assistido. Imunidade de manada? Na boiada já fui boi.

Deixe uma resposta