O mundo a.Cv. e d.Cv. aos olhos de De Masi

Absolutamente oportuno e transcendental o texto do sociólogo Domenico De Masi, transcrito na Ilustríssima no último domingo. Isolado em seu refúgio no centro de Roma, o célebre autor de Ócio Criativo vê a capital italiana – que até duas semanas atrás era um centro nervoso e cultuado por gente do mundo inteiro –, transfigurar-se em um deserto sombrio.

A partir de suas reflexões, De Masi aponta com amarga ironia para o atual cenário na Europa, acometida pela tragédia desencadeada pela Covid19: um lugar no qual, “até ontem, era permitida a livre circulação de pessoas, mercadorias e dinheiro, agora cada país, em vez de abraçar uma colaboração ainda mais solidária com os demais, tranca suas próprias fronteiras, iludindo-se, de forma cínica e infantil, que seja possível deter o vírus com barreiras aduaneiras.”

O vírus não tem bandeira, nem ideologia. Não é chinês de origem como acusa Trump, nem é armação chinesa como quer o aloprado Dudu Bolsonaro. E isso é tão óbvio quanto para De Masi é a ideia esdrúxula de se querer frear a globalização. “É o mesmo que se opor à força da gravidade”, compara. “Nosso planeta, ele diz, já é aquela aldeia global de que falava McLuhan, unida por infortúnios e pela vontade viver, precisando de uma direção unitária, capaz de coordenar a ação sinérgica de todos os povos que desejam se salvar. Nessa aldeia global, nenhum homem, nenhum país é uma ilha.”

A partir daí, De Masi desfia um corolário de supostos aprendizados que a humanidade pode tirar desse evento, que tem potencial para se transformar em um dos mais avassaladores de sua história. Que diante de um problema tão complexo como uma pandemia, por exemplo, “as decisões não apenas devem ser tomadas por pessoas competentes, mas também ser comunicadas de forma unívoca, com autoridade, de forma abrangente e clara.” Que os “fatos e os dados devem prevalecer sobre as opiniões, a competência sobre o simples bom senso e a gradualidade das intervenções sobre decisões arrogantes e a improvisação imprudente.”

Que todo o “alarmismo e exagero assim como a subestimação são danosos porque confundem as ideias e nos faz perder tempo”. Que “talk shows superficiais e fake News delirantes levam ao cinismo e à desumanização.” E que fundamentalmente tenhamos “um governo competente de grande inteligência e apoiada pelos máximos representantes das ciências médicas, da economia, da sociologia, da psicologia social e da comunicação.”

Nesse ponto constatamos o quanto o país regrediu em termos civilizatórios, do ponto de vista ético, moral e da valoração de suas competências – a despeito dos esforços empenhados pelo ministério da saúde em levar o barco a um porto seguro. Sem uma “cabine de comando”, pra utilizar expressão de De Masi, corremos o risco de ficar à deriva tal é incapacidade – e para muitos, imoral – cotidianamente demonstrada pelo atual governo em lidar com uma crise desse calibre. Mas aqui, convenhamos, a incompetência alcança o seu paroxismo.

Domenico De Masi vai além. Seu pensamento atravessa fronteiras para atacar de frente a política neoliberal, que “se alastrou sob Ronald Reagan e Margareth Thatcher” e “cuja marcha ré e freios” ela “obstinadamente se recusou a usar”, agora foram desencadeados implacavelmente: “não graças a uma revolução violenta, mas a um vírus invisível que um vírus soprou sobre uma sociedade opulenta, obrigando-a a se repensar.”

E, citando o economista e educador anglo-americano Kenneth Boulding – autor do ensaio A economia da futura espaçonave Terra, de 1966, em que aborda a necessidade de compatibilizar a utilização dos recursos naturais e a conservação ambiental – dispara: “Quem acredita na possibilidade de crescimento infinito num mundo finito ou é louco ou é economista.” Ao que eu acrescento: provavelmente da escola de Paulo Guedes.

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