Terra arrasada é terreno fértil para os propósitos de Messias

O que leva um chefe de estado, em pronunciamento à nação, a atacar diretrizes traçadas por seu próprio governo para combater um mal que ameaça toda a população? O que leva o presidente de uma das dez maiores economias do mundo a confrontar a comunidade científica e desprezar as recomendações da Organização Mundial de Saúde, hoje em missão para conter uma pandemia com potencial para se converter na maior tragédia da História recente? O que leva um cidadão a tripudiar sobre o bom senso?

Em 4 minutos e 32 segundos, Jair Messias Bolsonaro saltou da tela TV para a História com um dos discursos mais ignóbeis de que se tem notícia. Com sua habitual leitura claudicante diante do teleprompter, o capitão acusou autoridades estaduais e municipais de promover a estratégia de terra arrasada, segundo ele, configurada pela paralisia dos transportes, o fechamento do comércio e o confinamento em massa.

Voltou a atacar a imprensa pela “histeria” com que tem tratado a pandemia e conclamou o país a “voltar à normalidade” – e espantar a poeira do vírus, porque pelo menos em gente como ele, em caso de contaminação, a tal Covid19 causaria no máximo uma “gripezinha”. Sobre eventual medida que pudesse mitigar os efeitos da pandemia ou acenar com algum alento à população, uma palavra sequer.

Alguém já se referiu a um certo traço imprevisível da personalidade de Messias. O que há de certo é a previsibilidade das reações da classe política que decorrem de sua fala meticulosamente pensada para chocar. Expressões como perplexidade, indignação, estupefação recheiam o noticiário após as manifestações alopradas do capitão. Messias Bolsonaro fala para suas falanges virtuais, a fim de instrumentalizá-las para o embate, utilizando todo arsenal virulento de que dispõe.

Com a erosão de sua mínima base de apoio, apela para a parcela de seu eleitorado, que também se desfaz a cada dia, diante do recrudescimento da situação e de sua equivalente incapacidade de lidar com a crise. Sabe – como já expressou – que, com a economia em baixa, seu (des)governo vai pro ralo. Por isso ecoa pensamento de um certo segmento do empresariado que emergiu a partir de sua ascensão e para o qual o país não pode parar “por conta de 5 a 7 mil pessoas que vão morrer.”

Sua argumentação, no entanto, é própria de um chucro. Segundo ele, “o que se passa no mundo tem mostrado que o grupo de risco é o das pessoas acima de 60 anos. Então por que fechar escolas?”, pergunta, ignorando mecanismo da cadeia de transmissão, cotidianamente repisado por seu próprio ministro da saúde, e pelo qual pessoas bem jovens constituem fortes vetores, ainda que assintomáticos.

Nesta manhã seguinte ao discurso, quando se esperava que aparecesse algum bombeiro do Planalto para refrear nova crise política – agora com implicações de segurança nacional – Bolsonaro manteve o tom beligerante e sinalizou que vai encostar Mandetta na parede para que reveja sua estratégia de “isolamento horizontal”.

Bolsonaro age deliberadamente na contramão não só da Ciência, como do próprio serviço de inteligência da presidência da República. De acordo com o site The Intercept Brasil, relatórios da Abin entregues a ele apontam que, em duas semanas, poderemos contabilizar mais de 5500 brasileiros mortos, caso a curva epidêmica se assemelhe à da Itália, Irã e China. E nesse caso a demanda por leitos de UTI, nesse período, alcançaria percentuais elevados, chegando a 46% em certas regiões.

As projeções da Abin acompanham as divulgadas por Mandetta, semana passada, segundo as quais, “até o final de abril nosso sistema (hospitalar) entra em colapso. Para evitá-lo é necessário segurar a movimentação (de pessoas) para segurar a transmissão.” Messias aposta no tudo ou nada. Sem medir consequências, ele se move obstinadamente em direção ao caos.

Trata-se do mesmo capitão de alma terrorista, que um dia arquitetou explodir um duto de abastecimento de água no Rio, como forma de pressão para reivindicações salariais corporativas. Sua menção ao “conceito de terra arrasada” no pronunciamento de ontem é suficientemente revelador: este é o terreno fértil para seus delírios totalitários.

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