A ecologia da doença e o caminho da pandemia anunciada

Foto: Olaf Hajek, New York Times

O site da Agência Envolverde traz uma matéria que dá pistas sobre a origem do pesadelo que vivemos hoje com a pandemia do novo coronavírus. Intitulado A Ecologia da Doença, o texto foi publicado originalmente pelo The New York Times em julho de 2012, com assinatura de Jim Robbins.

Basicamente Robbins apresenta um painel sobre o esforço global empreendido por epidemiologistas, auxiliados por biólogos e veterinários, para entender como a desorganização de um ecossistema pode desencadear doenças, muitas delas de alto contágio e letalidade. O trabalho é desenvolvido no âmbito de um projeto chamado Predict (Prever), com financiamento da Usaid, Agência dos Estados Unidos para O Desenvolvimento Internacional na sigla em inglês.

De saída Robbins, com base nos depoimentos de especialistas, adverte que “se não entendermos e cuidarmos do mundo natural, esse processo poderá causar um colapso desses sistemas e voltar a nos assombrar de maneiras como pouco sabemos.” Mais que uma advertência, a frase hoje soa como um vaticínio.

E a questão, como ele próprio destaca, não diz respeito só à saúde da população, mas também à economia, com consequências imprevisíveis para todo o planeta. Na época, o Banco Mundial estimava que uma grave pandemia de gripe poderia custar à economia mundial 3 trilhões de dólares. Ficção? Se era foi pro espaço em menos de uma década.

O Congresso dos Estados Unidos deve terminar de votar ainda hoje um pacotaço de 2 trilhões de dólares para alimentar famílias e tirar empresas americanas do buraco causado pela Covid 19. E outros 5 tri de dólares acabam de ser anunciados pelo G20 numa ação de emergência para tirar a economia global da UTI. É um volume estratosférico de recursos e os resultados ainda assim são incertos, dada a rápida disseminação do vírus pelo mundo afora, particularmente na Europa e nos Estados Unidos, agora configurado como o novo epicentro da crise.

Veja: isso foi escrito há quase oito anos, quando a humanidade já havia enfrentado Aids, Sars, Ebola, mal de Lyme e uma centena de outras doenças infecciosas. Traçando o histórico e as origens dos vírus causadores desses males, já era então possível demonstrar como vetores conhecidos, como o morcego, por exemplo, apontavam para um certo padrão na cadeia de transmissão. O que, segundo os estudos realizados, tudo levava a crer que essas doenças não aconteciam por acaso, mas eram resultado direto da ação do homem sobre a natureza.

Os dados sustentam a investigação: sessenta por cento das doenças infecciosas emergentes eram (ou são) zoonóticas, ou seja, são transmitidas por animais. E dessas mais de dois terços são originárias da vida selvagem. “Qualquer doença emergente nos últimos 30 ou 40 anos surgiu como resultado da invasão de terras selvagens e mudanças demográficas”, pontuava Peter Daszak o editor-chefe da EcoHealth, publicação voltada para pesquisa sobre os efeitos das mudanças nos ecossistemas.  

No Brasil o reaparecimento de doenças já erradicadas, como a febre amarela, a dengue, o sarampo e outras tem sido tema de debates sem que se tenha uma resposta tangível para o fenômeno, apesar das suspeitas. Não é difícil estabelecer relação de causa e efeito a partir de constatações tiradas de dos estudos desenvolvidos.

Em um deles, o acréscimo em cerca de 4% no desmatamento de uma certa área na Amazônia provocou elevação de 50% nos índices de malária. Isso porque as condições ambientais resultantes das áreas recém desmatadas certamente facilitam a proliferação do mosquito transmissor.

Explorar a floresta de maneira errada, diz o autor, pode ser como abrir a caixa de Pandora. Talvez agora com a tragédia consumada pela Covid 19, governantes de todo mundo possam levar a hipótese a sério como aguardam os especialistas.          

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