A pandemia e o país sob o signo da vilania

A semana abre com um panorama ainda mais sombrio que a anterior. De um lado o recrudescimento da Covid 19, deixando um rastro avassalador de morte pela Europa e Estados Unidos. De outro, a projeção de uma depressão econômica global de proporções inimagináveis, que deverá condenar ao mesmo fim as camadas mais vulneráveis da população mundo afora.  

Segundo estimativas da ONU, em boletim divulgado nesta segunda-feira, o bloco dos países emergentes de fato sofrerá um impacto colossal, com o Brasil despontando como um dos mais afetados, por conta da queda no comércio exterior, quebra no preço de commodities e fuga de capital. Pelo documento o pacote para resgate inicial do bloco não sairá por menos de 2,5 trilhões de dólares – algo próximo ao dobro do PIB brasileiro   

No plano nacional, já há sinais de movimento em desespero pela falta de dinheiro e alimento nas comunidades mais carentes aprofundada pelo isolamento, notadamente no Sudeste, que concentra a maior fatia desses aglomerados, como destaca a Folha de domingo. Na rede hospitalar, mesmo com a espiral da contaminação ainda em formação, a demanda por leitos de UTI já se insinua explosiva. Em função disso, a corrida nesse pela construção de hospitais de campanha a toque de caixa.

Em outra ponta segmentos contrários à política de isolamento pressionam pela retomada da economia já. A principal ameaça do momento vem dos magnatas do setor varejista, que sinalizam com a demissão de um terço de seus 1.8 milhão de empregados. O tambor do varejo vem coadjuvado pelas buzinas das hordas bolsonaristas, que saem às ruas em seus carros para defender que seus empregados sigam para o trabalho de peito aberto contra a pandemia – em sintonia com peça publicitária do governo federal sob o slogan “O Brasil Não Pode Parar”, cuja veiculação afinal acabou proibida pela justiça federal do Rio.  

Todo esse desatino em torno da necessidade emergencial de preservar vidas e a retomada da atividade econômica leva a chancela do (des)governo do capitão Messias Bolsonaro. Ninguém em sã consciência ignora os efeitos colaterais de uma paralisação prolongada. Nem tampouco desconsidera a catástrofe que adviria com a falta de medidas de restrição.

Mas não estamos falando de alguém de mente sã. Por desígnios insondáveis coube ao país a infelicidade de viver um dos momentos aterradores da humanidade sob o signo da ignorância e da vilania. Assim o país está condenado a dois martírios: o temor pela pandemia e o descontrole causado pelos delírios autoritários do capitão presidente.

No sábado seu ministro da saúde, Luiz Mandetta, em pronunciamento de mais de duas horas, falou da necessidade de se manter a quarentena de acordo com o estabelecido, negando qualquer possibilidade de isolamento seletivo ou vertical. E lembrou que a retomada da atividade econômica só deverá ser feita mediante critérios técnicos previamente estabelecidos. Isso depois de uma reunião pela manhã no Planalto, em que traçou, para o presidente e parte do seu ministério, cenários sinistros resultantes de eventual descontrole da doença.  

Não adiantou. No domingo pela manhã Bolsonaro saiu às ruas para voltar a atacar as medidas de isolamento, em afronta direta a seu ministro e à comunidade científica. “Normalmente o populista cria uma espécie de ambiente tóxico na política entre ele e seus oponentes”, diz o cientista político americano Steven Levitsky, autor de Como As Democracias Morrem, para quem o capitão continuará com a mesma estratégia populista com que chegou ao poder. Segundo Levitsky, em entrevista exclusiva ao Estadão, “na crise em que o Brasil se encontra, não há nenhuma garantia de que Bolsonaro se comportará democraticamente.”

Certamente não. É pelo impasse que o capitão se move, é no caos que ele busca sustentação, não importam quais sejam as consequências. O capitão deixou de ser um problema político para se constituir em risco letal à nação. Por isso passou da hora de remover esse cidadão da cadeira presidencial, dado já perceptível por parcelas significativas da sociedade civil e da própria classe política. Pelo conjunto da obra, traduzida pelo risco institucional e por sua notória incapacidade de conduzir o país nesta travessia dramática, é que nós da frente partidária de oposição endossamos o documento em que pede sua renúncia.

Espero que este manifesto sensibilize seus pares dentro do governo e que estes ajam para que as propostas econômicas de enfrentamento à crise, muitas delas nele contidas, possam ser debatidas e levadas a termo para mitigar os efeitos nefastos que deverão recair sobre a população.

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