Estratégias que podem preservar vidas

No Estadão de domingo, o biólogo, escritor e professor Fernando Reinach traz uma análise sobre as diversas formas de combate à pandemia da Covid 19, com base em um estudo de epidemiologistas do prestigiado Imperial College, de Londres. São três as estratégias consideradas para os diversos cenários de 202 países (consderando demografia, distribuição etária, estrutura social e outras), incluindo o Brasil.

A primeira seria ignorar a existência do vírus, deixando que ele se espalhasse ao redor do planeta. Para essa hipótese a projeção de contágio em todo o globo, no primeiro ano, alcançaria um percentual de 90% de toda a população mundial estimada em 7,7 bilhões de pessoas, com um saldo de 40,6 milhões de mortes.  

A segunda estratégia é o da mitigação dos danos epidemiológicos, desconsiderados os impactos econômicos e sociais. Neste caso as medidas de contenção seriam adotadas para tentar reduzir as interações entre pessoas em até 42%, para que a contaminação se espraiasse ao longo do tempo, aliviando assim a carga sobre o sistema de saúde. Haveria duas vertentes a partir desse cenário.

Uma seria isolar somente os idosos e a outra, toda a população de cada país. Pelo estudo, tanto faz o caminho a seguir: o número de mortos bateria a casa dos 20 milhões, atingindo mais fortemente os países do terceiro mundo, com um saldo de infectados que seria 25 vezes maior que a capacidade de atendimento de sua rede hospitalar – no mundo desenvolvido o impacto seria de 8 vezes. Reinach lembra que o Reino Unido tentou essa estratégia originalmente, mas recuou depois das projeções altamente sinistras.

A terceira via é a da supressão do coronavírus, estratégia adotada pela China e que prevê uma redução de até 75% na interação pessoal de todo país. Para essa possibilidade há também duas possibilidades e os resultados variam significativamente de acordo com o tempo gasto na adoção do isolamento. Se feita com a brevidade necessária, em um prazo de pouco mais de seis meses, o mundo contabilizaria 470 milhões de infectados, com um saldo de 1,9 milhão de mortos.

Caso contrário, se a segregação social for decretada em meio a um número significativo de mortos por semana, estas cifras, segundo o estudo, fatalmente pularão para 2,4 bilhões e 10,5 milhões respectivamente. Esse acréscimo exponencial diz muito sobre a condição atual da Itália, destaca Reinach, que aponta dois problemas na estratégia de supressão: a primeira se refere à sua implementação, considerando que o caso da China é exemplar. A segunda é que a supressão deve ser mantida até que apareça um antídoto ao vírus, seja vacina ou antiviral. O relaxamento dessa premissa teria como consequência o surgimento de uma segunda onda de contágio dado que apenas uma parcela mínima da população estaria imunizada.

O Brasil, conforme Reinach, ainda tem uma janela para uma alternativa de supressão com resultado satisfatório, se é que se pode assim considerar. Para isso a estratégia teria que ser adotada nesta ou até a próxima semana, quando o número de vítimas fatais por semana estiver contido na casa de algumas centenas. Ainda assim a previsão, no melhor cenário, é que teríamos um quadro que superaria a casa de 11 milhões de infectados, ou pouco mais de 5% de população brasileira estimada em 212 milhões, e 44 mil mortos.   

Essa avalanche de número aterradores, ainda que fria e nefasta para qualquer leitor, aponta para a importância de se ter em mente os modelos matemáticos que embasam as teses científicas de combate ao vírus. E o que, como nota Reinach, é que todos os governantes que acreditam nelas deveriam fazer.

O pesquisador adverte ainda que a aplicação de qualquer estratégia de contenção não é certeza de sucesso. “Uma estratégia de supressão pode se transformar facilmente em mitigação e esta pode não funcionar”, diz. Além do tempo preciso para sua adoção, o isolamento para depende fundamentalmente da disciplina da população em observá-lo. As duas próximas duas semanas serão decisivas.

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