O corona e a lógica do lucro

A escala da disseminação da Covid 19 é surpreendente e chocante, mas não o seu surgimento. Os cientistas têm alertado para uma pandemia há anos, insistentemente desde a epidemia de Sars (Síndrome Respiratória Aguda Grave), em 2003, também provocado por um coronavírus. “Aquela era a hora de começar a implementar sistemas de resposta rápida para um surto. E desenvolver defesas e formas de tratamento para uma provável recorrência de um vírus associado.”

A avaliação é do professor, filósofo e sociólogo americano Noam Chomski, em entrevista ao site TruthOut e reproduzida pela Agência Envolverde. Mas, segundo ele, “essa opção acabou barrada pela patologia da ordem socioeconômica contemporânea.” Chomski observa que “a tomada de decisões está condicionada ao mundo de negócios, que é devotado ao lucro privado e livre de influência daqueles que possam estar preocupados com o bem comum.”

Um exemplo dessa patologia? A falta de equipamentos de respiração mecânica, hoje o principal item do protocolo no atendimento hospitalar de pacientes da Covid 19 em todo o mundo e que ele classifica como “uma das mais dramáticas e assassinas falhas” do sistema de saúde americano. A origem do problema causa indignação, mas não é nada do que já não tenha sido visto nas transações de mercado, muitas vezes, transnacionais, nas últimas décadas.

Ele conta como o Departamento de Saúde americano previu o problema e contratou uma pequena empresa para produzir respiradores baratos e fáceis de usar. E como essa empresa foi engolida por uma grande corporação, que logo depois abandonou o projeto por considerar o negócio pouco lucrativo.

A partir desse modelo de negócio, que hoje se revela com potencial de dizimar populações, Chomski disseca os últimos 40 anos da política neoliberal de Ronald Reagan em tabelinha com Margaret Thatcher – modelo que, segundo ele, “injetou dose extra de brutalidade na ordem capitalista incontida e na forma distorcida de mercado por ela construída.”

Estão ali desde as transações e manobras fiscais do ex-presidente hollywoodiano, que desaguaram no aprofundamento do abismo social americano, às jogadas para derrubar o sistema universal de saúde; da opção do capital pelos combustíveis fósseis, sufocando iniciativas rentáveis de energia sustentável, à vilania ardilosa de Trump para tentar encobrir a tragédia que já se prenunciava com os sinais emitidos pela China.  

Resumo da ópera, por Chomski: “não há lucro em se impedir uma catástrofe futura”. O que se espera é que a partir dessa jornada aterradora o mundo possa se refazer em outras bases. Nada leva a crer que essa lógica possa ser revertida tão cedo com essa classe de governantes. Mas é o que nos resta – acreditar.

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