Circo do horror

Bloqueado pelo STF, que garante em decisão cautelar autonomia a estados e municípios para determinar medidas de isolamento social, Bolsonaro trata de fazer valer o seu chamado para que a população volte a trabalhar no dia seguinte à Páscoa. Decidiu romper a quarentena no peito e na base da guerrilha. Já na quinta, em afronta às recomendações e decisões tomadas para garantir as restrições à circulação de pessoas, o capitão saiu do Planalto para tomar um lanche em padaria da Asa Norte de Brasília.

No front político, seu lugar tenente Onix Lorenzoni, da Cidadania, saiu a campo para conspirar a derrubada de Mandetta do ministério da Saúde. O áudio em que articula a trama com o deputado Osmar Terra acabou vazado pela CNN Brasil. Bolsonaro se recusou a comentar o episódio. Preferiu em sua live semanal no Facebook, trocar impressões com o presidente da Caixa Econômica ali presente sobre as relações médico-paciente. Médico não abandona paciente, mas o paciente pode trocar de médico, comentou, parafraseando Mandetta e alertando-o de que sua cabeça continua a prêmio.

Na outra ponta, em encontro com o governador Romeu Zema, de Minas, que foi ao Planalto pedir apoio financeiro para superar a crise, Bolsonaro foi direto ao ponto. E Zema saiu de lá dizendo que o estado deve apresentar, logo na semana que vem, protocolo para medidas de flexibilização das medidas de contenção. Segundo dados da Secretaria de Saúde de Minas, até sábado passado, 76% dos infectados no estado têm entre 20 e 59 anos. Ou seja, dois terços dos enfermos (oficiais) estão fora do principal grupo de risco por faixa etária.

Bolsonaro: “Tenho direito de ir e vir”

E pra fechar o circuito, na sexta da Paixão, logo pela manhã, o capitão resolveu renovar o passeio pela capital federal. Fora da agenda e acompanhado do general Fernando Azevedo e Silva, seu ministro da Defesa, foi ao Hospital das Forças Armadas e, na saída, passou em uma farmácia, sempre cercado de sua claque. Com ela trocou apertos de mão, abraços e posou para selfies, em flagrante desprezo ao protocolo do isolamento. “Eu tenho direito de ir e vir. Ninguém vai tolher minha liberdade de ir e vir”, rebateu.

Bolsonaro já traçou seu caminho, que dificilmente tem volta. Até porque não resta alternativa política para sair do isolamento que lhe foi imposto. Assim nada vai deter sua sanha irrefreável de atacar as leis, a ciência e o bom senso. A exceção talvez, como lembrou o próprio Mandetta, seja a imagem de caminhões transportando corpos pelo país afora por falta de covas para enterrá-los. Mas consequência é um termo que não consta do dicionário do capitão, como demonstra sua trajetória desde os tempos de caserna.

Certamente um dia ele terá que responder por isso, mas aí talvez o preço a ser pago seja incalculável. Uma aposta de altíssimo risco, mas que está posta na mesa, para desespero da classe médico-científica e do restante do país.

O circo do horror deve-se manter no pós-Páscoa, conflagrando ainda mais um cenário já dilacerado número crescente de vítimas abatidos pelo coronavírus – e que já superou oficialmente, neste fim de semana, a casa do milhar, além de outros 20 mil infectados.

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