Cloroquina: o salto no escuro do capitão

Cloroquina. Esse é o nome da plataforma com que Bolsonaro pretende lançar-se em voo cego rumo a 2022. Cloroquina – ou hidroxicloquina, sua variante farmacológica – é o nome da droga normalmente indicada para o tratamento da malária, artrite reumatoide, lúpus e outros males. No momento ela está sendo testada em caráter experimental, assim como vários outros fármacos, em pacientes internados em estado grave ou crítico, conforme recomendação do Ministério da Saúde. Mas não há comprovação de sua eficácia para a Covid 19. Por isso a reserva quanto a seu uso por parte de infectologistas, epidemiologistas e institutos de referência.  

Não para o capitão Messias. Desde que seu guia Trump mencionou a droga no Twitter, Bolsonaro agarrou-a como um náufrago e passou a mascateá-la nas redes sociais como panaceia contra o coronavírus – chegou até a leva-la a tiracolo na reunião do G20. Estava ali o caminho para sua própria panaceia, capaz de liberta-lo do isolamento que lhe foi imposto pela cúpula do Congresso e demais lideranças políticas. E com o “respaldo científico” necessário para dinamitar a tese de isolamento social.

E com esse trunfo na mão o capitão Messias foi para mais um pronunciamento em cadeia de rádio e TV, nesta quarta-feira, para, digamos, fazer o lançamento oficial do produto-plataforma. propagandeou a droga – usou para isso o testemunho do cardiologista Roberto Kalil, que divulgou ter tomado cloroquina como tratamento da Covid 19, sem seu consentimento –, responsabilizou diretamente os governadores pelas medidas de isolamento social e suas consequências e conclamou a população a voltar ao trabalho já na segunda-feira pós-Páscoa.     

Assim, como num passe mágica, o mundo voltaria ao normal em questão de horas. Antes desse enredo chinfrim, porém, o capitão tratou de preparar a estratégia para a noite da virada. Logo pela manhã, convocou Mandetta para uma reunião no Palácio. E logo depois, durante a coletiva diária do ministro, percebeu-se a questão de fundo de seu encontro com o capitão: “Bolsonaro é o grande timoneiro deste barco”, enalteceu Mandetta. “O momento é de calma. O Brasil já passou por momentos mais dramáticos do que esse na sua história”.

Afinado o discurso com o personagem que até aqui tem dado as cartas no enfrentamento da crise, o capitão foi ao encontro de seu público (até aqui) cativo. Em entrevista ao Brasil urgente, de Datena, tratou mais uma vez de atacar frontalmente as medidas de isolamento adotadas nas capitais, como se elas já estivessem um viés de baixa junto à população. “Em algumas cidades já tem aumento de trânsito, aos poucos as coisas vão se normalizando.” E voltou a acenar com o decreto para por fim às restrições: “Estou estudando se assino ou não, porque vou ter problema com a Justiça.”

De quebra ainda fustigou o médico infectologista e chefe do Centro de Contingência, David Uip, que, curado da Covid19, se negou a revelar se havia tomado cloroquina – de resto as falanges bolsonaristas se encarregaram de lacrar a situação, ao divulgar receita de Uip com prescrição de cloroquina a paciente seu, o que fez o médico reagir, acusando invasão de privacidade.

O próprio João Doria tomou um caldo, ao ser cutucado por Mandetta, acusando-o de politizar o uso da cloroquina na rede pública em São Paulo – o que deve ter enterrado o sonho do governador paulista, que já vislumbrava capitalizar com o desfecho da rota de colisão no Planalto, trazendo o ministro para suas fileiras.  

Assim, com o cenário armado a partir da desestabilização no principal front adversário, o capitão foi para a TV. E, com o tom mais uma vez temperado pela mão da ala militar, o capitão demonstrou que está disposto de ir para o tudo ou nada, sendo que o nada pode representar um passivo trágico. E o pior é que o capitão não está sozinho nessa cartada. Já há sinais mesmo entre integrantes da ala militar palaciana de que há que uma expectativa de sucesso com a cloroquina – o que catapultaria de vez os planos do capitão para bem além da depressão que se avizinha.

Antes, porém, que o dia terminasse o ministro Alexandre de Moraes do STF apareceu para abater Bolsonaro em pleno voo, determinando que estados e municípios têm autonomia para quarentena, medidas de isolamento social, restrição atividades do comércio, do ensino, da cultura, independentemente de determinações do governo federal.

Poupou assim o capitão de mais um decreto em nome da estupidez.

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