O médico e o monstro

Vejo pelo noticiário desta segunda-feira que Mandetta que teria perdido apoio dos militares palacianos. O motivo teria sido a entrevista que o ministro da saúde deu ao Fantástico no domingo. Para eles houve quebra de hierarquia. Na entrevista concedida no Palácio das Esmeraldas, do governo de Goiás, Mandetta basicamente repetitu o que tem sido seu mantra ao longo do último mês: foco, disciplina e ciência. E que a única alternativa para segurar a curva de disseminação e evitar o colapso da rede hospitalar é resguardando o isolamento social. E mais uma vez advertiu: “maio e junho serão os sessenta dias mais duros para as cidades”.

O ponto fora da curva da sua retórica foi o que tocou na necessidade de unificação do discurso por parte do governo. Perguntado sobre as atitudes de Bolsonaro em sabotar deliberadamente as orientações do ministério, Mandetta foi incisivo: “Isso leva o brasileiro a uma dubiedade: ele não sabe se escuta o ministro da saúde ou se escuta o presidente da República.”

The Economist

Alguma dúvida sobre isso? Na verdade, a fala de Mandetta foi precisamente cirúrgica, para não ferir suscetibilidades e ao mesmo tempo mandar seu recado. E a quem ouvir então numa situação dessa, pergunta o repórter.“Tem pessoas que comem doce mesmo sendo diabético. A gente pode dizer a ela: você pode ter problema, o seu rim vai parar, você pode ter déficit de visão, amputação de perna, e a pessoa continua comendo doce.”

Há sinais de que para os militares, que têm apoiado o ministro, a fala foi a deixa para que Bolsonaro assinasse a sua demissão – já que Mandetta diz que não abandona o barco. Sustentam que ele não poderia ter desafiado o presidente publicamente e ultrapassou a linha.

Duas perguntas a respeito. Uma: cabe a ideia de discutir quebra de hierarquia, desafio à autoridade constituída nessa altura do campeonato? O capitão passou a semana santa em peregrinação por avenidas, padarias, farmácias junto à sua horda de fiéis, em flagrante ataque às recomendações de seu próprio ministério, ao protocolo da comunidade médico-científica e à OMS.

No sábado, em visita às obras do hospital de campanha em Águas Lindas de Goiás, em companhia do próprio Mandetta e de Caiado, foi mais acintoso: tirou a máscara cirúrgica que carregava e foi para um tête-a-tête com a população local.

E pra fechar o domingo de Páscoa, fez uma live para comunidades evangélicas, na qual articulou um libelo pela ignorância e diversionismo. Disse Messias em sua cruzada contra o isolamento social: “Quarenta dias parece que está começando a ir embora a questão do vírus, mas está chegando e batendo forte o desemprego.” Nenhum modelo matemático apresentado até aqui resvala na ideia de que o mal está se dissipando.

Duas: estariam os militares, que conferem algum equilíbrio às ações palacianas, dispostos a embarcar na sanha obscurantista do capitão? Pouco provável até pela natureza da corporação. E porque já se conhece sua orientação: estudo recente do Centro de EstudosEstratégicos do Exército, divulgado em sua página oficial (e posteriormente tirado ar) referenda as diretrizes traçadas por Mandetta.

Na seara política um paredão trumpiano se ergue diante de eventual tentativa de substituir Mandetta por um negacionista ao gosto do capitão. Mais de 2/3 dos brasileiros aprovam a politica de isolamento do ministério da saúde, segundo o Datafolha. Entre eles, nada menos que 82% dos próprios eleitores bolsonaristas fecham com Mandetta. No Congresso, a mesma toada.

E junto à comunidade internacional o comportamento de Messias já é visto como aberração – à exceção de Trump. A conservadora revista britânica The Economist, aponta, em sua última edição, sinais de “insanidade” e crava que “restam poucas dúvidas de que a conduta do presidente seja caso constitucional para um impeachment”.

Como se vê, mexer na Saúde é tentar pinçar uma peça em um feixe do pega varetas. E Bolsonaro não possui destreza nem estratégia, seu impulso é pelo confronto. Um gesto em falso da caneta do capitão e pode ser o começo do fim. A cúpula do governo sabe disso. Por isso só lhe resta continuar sabotando as ações de Mandetta, forçar a barra até que ele peça demissão. Para nós é o médico ou o monstro que habita Bolsonaro.

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