Os indígenas ameaçados pelo vírus e as invasões

A Agência Pública (apublica.org) traz esta semana relato sobre a situação explosiva em que vivem as comunidades indígenas da Amazônia com o avanço da Covid 19. Assinada por Vasconcelo Quadros e Anna Beatriz Anjos, a reportagem registra o aumento do contágio – até a última segunda-feira (13) havia 3 mortes oficiais, entre elas, a de um adolescente de 15 anos da etnia Yanomami, de Roraima, além de outros nove infectados – retrata o abandono a que foram relegadas estas comunidades e a pressão cada vez maior que elas sofrem por parte de invasores.

Segundo a Pública, desassistidas pelo governo, essas populações contam só com o trabalho de lideranças comunitárias, entidades indigenistas e agentes de saúde, que “travam uma guerra quase solitária” contra a doença – e, claro, não contam com nenhum tipo de equipamento de proteção individual ou medicamento.

A maior ameaça vem de garimpeiros, que parecem ter obtido salvo conduto a partir do desmonte do aparato de preservação ambiental promovido pelo governo Bolsonaro. “O risco de contágio é iminente”, adverte a coordenadora executiva dos Povos Indígenas do Brasil, Sônia Guadajara. “Exigimos que os órgãos de segurança tirem os invasores das terras indígenas.”

O coordenador do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Antonio Eduardo Oliveira, ouvido pela Pública, afirma que o garimpo ilegal tem crescido desenfreadamente nas comunidades indígenas. “Só nas terras dos Yanomami são mais de 30 mil garimpeiros”, ele avalia, estimando um acréscimo de 50% da mineração ilegal em relação ao final do ano passado.

Ele observa que crise desencadeada pelo coronavírus enfraqueceu ainda mais os sistemas de controle e favoreceu a invasão. Não há nenhum plano de emergência ou contenção por parte da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai). Seus agentes já haviam sido afastados das áreas de conflito. Assim, um eventual agravamento da doença entre essas populações poderá ser fatal.

“Temos um histórico muito perverso de doenças contagiosas, que dizimaram etnias inteiras no passado”, observa Sônia Guajajara, coordenadora executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib). “Todos estão assustados.”

A ação predatória – e conseqüente risco às comunidades indígenas – não advém só do garimpo clandestino. A grilagem e terras e a exploração ilegal da madeira também têm se beneficiado do relaxamento dos controles por parte da Polícia Federal e do Exército. Juntos formam um caldo potencialmente letal.

Pública registra que lideranças da etnia Karipuna, em Rondônia, alertam sobre a cão de invasores “limpando áreas a 10 quilômetros da Aldeia Panorama para extrair madeira. E citando levantamento do Estadão, com base em informações do Inpe, aponta que, nos últimos oito meses, as áreas desmatadas praticamente dobraram na Amazônia, alcançando mais de 5 mil quilômetros quadrados – o equivalente a mais de três cidades de São Paulo.

Para Guajajara é preciso a qualquer custo manter as comunidades isoladas e evitar o contato externo. Segundo ela é fundamental que a prevenção seja feita na fase mais aguda do contágio, que ameaça os indígenas na mesma proporção do avanço nas cidades. E cobra outras medidas por parte da Sesai, como a antecipação da campanha de vacinação contra H1N1 nas aldeias, anteriormente marcada para o final de abril. E também para que seja adotado o critério a “possibilidade de contágio comunitário”, considerando que há “forte interação entre aldeias e cidades”.

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