A constituição e o constituicida

Como de praxe, a semana abre com uma nova crise política. O protagonista previsivelmente é o homem-bomba instalado no Planalto, o personagem que já se constitui na própria crise ambulante. Neste domingo, porém, sua cruzada contra o isolamento social ganhou um elemento adicional, que em síntese escancara o que vem sinalizando já há algum tempo.

Na frente do QG do Exército em Brasília, saudou e demonstrou apoio a uma manifestação que pedia intervenção militar, fechamento do Congresso e do STF e instituição do AI5. A data, em que se comemora o Dia do Exército, não poderia ser mais significativa e a essência do discurso, feito de cima de uma caminhonete, não menos eloqüente:

“Eu estou aqui porque acredito em vocês. Vocês estão aqui porque acredita no Brasil”… “Nós não queremos negociar nada, queremos é ação pelo Brasil.”… “Acabou a época da patifaria. Agora é o povo no poder. Mais que direito vocês têm obrigação de lutar pelo país de vocês.”… “Todos no Brasil têm que entender que estão submissos à vontade do povo brasileiro. Contem com o seu presidente para fazer tudo aquilo que for necessário para manter a democracia e garantir o que há de mais sagrado: a nossa liberdade”….

Para ilustrar a fala do pai, Carlos o 02, postava quase que simultaneamente, em sua rede social, vídeo de um grupo de atiradores descarregando suas armas em direção a um determinado alvo, em exaltação à figura do capitão.

A rigor a retórica golpista não deveria surpreender, já que o capitão Messias não tem feito outra coisa nos últimos tempos senão afrontar a Carta, os Poderes, as instituições e a própria sociedade brasileira, já assombrada pelo avanço da pandemia no país. Mas pela simbologia dos elementos envolvidos a investida deste domingo faz crer que Messias rompeu qualquer limite do aceitável no plano institucional.

Até porque desta vez arrastou o Exército pro centro da cena, em claro chamamento à intervenção armada. Ou como prefere o general Mourão, Messias cruzou a linha de bola, em referência à falta grave de um cavaleiro em jogo de pólo. Aliás, essa foi a expressão utilizada pelo vice-presidente para a demissão de Mandetta da Saúde. E dessa vez: não é pra cartão vermelho?

Os sinais das três Armas colhidos pela imprensa junto a oficiais da ativa são de contrariedade e desconforto e, se não expressam clara reprovação ao gesto tresloucado do capitão, reafirma o compromisso constitucional de servir ao Estado, e não ao governo. Da Marinha ainda vem uma sugestiva alusão à tentativa de autogolpe promovido por Jânio Quadros, conforme registra Igor Gielow, da Folha. O que já traduz a cena farsesca promovida pelo capitão.   

Couberam às lideranças do Congresso, ministros do STF, organizações da sociedade civil e imprensa as manifestações de repúdio e condenação a mais este surto bolsonarista como tem sido usual ao longo de seu mandato.

O deste domingo decorre de seu crescente isolamento, a despeito da tentativa de cooptação de lideranças do Centrão, e foi turbinado por dois recentes revezes impostos ao governo: a decisão do Supremo de conferir autonomia a governadores e prefeitos e o projeto de ressarcimento das perdas com ICMS votada pela Câmara.

A questão que fica mais uma vez é: até quando? À longa lista de crimes de responsabilidade catalogada em nome de Bolsonaro, vem se somar mais um – desta vez chancelado pelo ex-presidente do STF Ayres Brito, para quem o capitão “revela um estilo de governo inadaptado à ordem constitucional”, conforme revelou à Veja. “A lembrança que se tem que fazer ao presidente é essa:a Constituição governa quem governa. Então, um presidente “constituicida” é uma contradição dos termos. É hora de um despacho saneador constitucional.”

Já nesta segunda, igualmente previsível, Bolsonaro apareceu no seu cercadinho do Alvorada para contradizer o que disse e desabonar pedidos de sua claque para fechar Congresso e Supremo.

“Esquece essa história de fechar. Aqui é democracia. Aqui é respeito à Constituição brasileira. Supremo aberto, transparente. Congresso aberto, transparente.”…“No que depender do presidente Jair Bolsonaro, democracia e liberdade acima de tudo. “Eu sou a Constituição.”

Podia também ser o samba, o rei dos terreiros. Seria também só comicamente patético, não fosse o fato de que estamos no meio de um furacão.

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