Moro sai, põe o capitão na berlinda e acena para 2022

Moro está fora do governo Bolsonaro. O estopim para a saída do ministro da pasta de Justiça foi a exoneração do diretor da Polícia Federal Maurício Valeixo. A demissão já havia sido desenhada na véspera, a partir do comunicado de Bolsonaro de sua intenção a Moro, algo que ele já vinha tentando desde agosto do ano passado e que teve que refrear por não encontrar respaldo político.    

Mais do que o pedido de demissão o que detonou  as bases bolsonaristas foi o anúncio incendiário de sua saída. Nem dentro nem fora do Planalto. Em pronunciamento de 40 minutos Moro elencou razões suficientes para enquadrar o presidente em mais alguns crimes de responsabilidade (além dos que comete dia após dia), além de falsidade ideológica – no decreto, assinado ainda na madrugada desta sexta-feira, a exoneração teria ocorrido a pedido de Valeixo e com assinatura de seu chefe da pasta da Justiça. Moro nega os dois pontos e diz que o ato foi “ofensivo”.

O ex-juiz protagonista da Lava Jato, que havia turbinado o mandato do capitão até aqui, emprestando um verniz de suposta moralidade, tratou de derrubar a máscara presidencial: acusou Bolsonaro justamente de ser o principal obstáculo no combate à corrupção ao tentar interferir no comando da Polícia Federal e em suas superintendências
regionais, exigir acesso a relatórios de investigação, que devem correr em sigilo, e de força-lo a interceder nos inquéritos que tramitam no STF. Moro certamente sabia com quem estava lidando ao embarcar na canoa bolsonarista.

A fala do ex-ministro repercutiu pelo país afora, deixando um rastro de perplexidade entre entre os três poderes, OAB,
imprensa e organizações da sociedade civil. De acordo com relatos, os próprios militares palacianos, que se empenharam para demover o capitão da ideia se sentiram traídos com a decisão, já que passaram a quinta-feira tentando uma mediação para segurar Moro no governo. Para alguns deles Bolsonaro jogou uma pá de cal em seu próprio governo. E de quebra jogou a deixa para quem quiser abraçar sua candidatura presidencial. Independentemente de onde eu esteja, sempre vou estar à disposição do país.”

Maia convocou lideranças políticas para avaliar o cenário e a margem política para a tramitação de um processo de impeachment, já que  há uma determinação do ministro Celso de Melo para que ele se manifeste sobre o pedido de cassação formulado por quatro advogados de São Paulo. O prazo se esgota em uma semana.

Isso tudo ocorre em meio — não custa lembrar – a uma pandemia que já aponta para cenários dramáticos em alguns estados. O ex-presidente Fernando Henrique foi direto ao ponto no tweet: “O presidente está cavando sua fossa. Que renuncie antes e ser renunciado. Poupe-nos de, além do coronavírus, termos um longo processo de impeachment. Que assuma logo o vice para voltarmos ao foco: a saúde e o emprego.”

O pano de fundo deste embate são justamente os processos mencionados por Moro e que correm no Supremo. Um deles é o que se refere ao esquema de fake news e ataques virtuais a autoridades do Supremo e lideranças políticas, O outro, aberto a pedido do procurador-geral da República, investiga as manifestações de domingo passada em que falanges descerebradas bolsonaristas em ritmo de micareta pediam intervenção militar e o fechamento do Congresso — além de outras investigações sobre o esquema de rachadinhas pilotado pelo filho 01 do presidente e seu lugar-tenente Queiróz.

As investigações de todos têm o potencial de convergir para o endereço virtual de toda a prole e logicamente para dentro do Planalto. Nesse cenário e isolado politicamente, o capitão passou a comandar uma operação de resgate de si mesmo.

Assim, a semana foi de intensa movimentação. Começou com o capitão escalando outro general, da ativa, Eduardo Pazuello, como braço direito do novo ministro da saúde Teich, que enfim, apareceu para uma coletiva para dizer mais do mesmo, cercado de obviedades e uma tese esdrúxula: “O Brasil é o país que melhor performa no combate à pandemia” (?) Quanto ao isolamento? isolamento é natural na largada, mas deve estar acompanhado de um programa de saída. É impossível para um país sobreviver um ano, um ano e meio parado.” (Alguém defendeu algo parecido¿) Nenhuma palavra, porém, sobre a situação da rede pública hospitalar, a falta de equipamentos de proteção aos agentes e saúde e estratégia para mitigar 

Seguiu com movimento de aproximação do Centrão, com a promoção de uma romaria de vários de seus líderes ao Planalto, a fim de reinventar uma base parlamentar que nunca teve. No cardápio, o pragmatismo próprio de um presidencialismo de coalizão (ou cooptação) a ser servido aos bons gourmets da velha política. E no horizonte, a eleição de 22 e o isolamento de Rodrigo Maia, a quem o capitão acusou de querer conspirar para tirá-lo do poder e manobrar para manter-se no comando da Câmara.

E pra fechar o combo da semana, em outro front, a ala fardada a do governo veio a público para apresentar o que seriam diretrizes para suposto plano econômico chamado Pró-Brasil, destinado a estimular a economia no pós-pandemia – embora tudo o que conseguiu foi destacar a ausência de alguém que deveria ser o articulador da iniciativa: Guedes, que é contra visceralmente qualquer dinheiro público na empreitada. 

O teatro de operações, apesar do bate-cabeça habitual, colocaria o governo na ofensiva contra isolamento, não fosse o curto-circuito provocado por Moro. Dado que fez com que o capitão Messias tivesse aparecer na TV para rebater as acusações do ex-ministro. Em pronunciamento feito na maior parte do tempo de improviso, o capitão defendeu-se das acusações, postando-se como vítima, enumerou desconexos entre si e partiu para o ataque: Moro teria usado Valeixo como moeda de troca, ao propor aceitar a demissão de Valeixo por uma indicação ao STF em novembro próximo, quando Celso de Melo se aposenta. 

Bolosonaro estava cercado de todo o seu ministério. O único que usava máscara cirúrgica, seguindo recomendação do ex da saúde, Henrique Mandetta, era Paulo Guedes, antes a fonte do saber batizada de Posto Ipiranga. Agora, para muitos, a próxima cabeça a prêmio.

Antes que o capitão terminasse sua fala, o procurador geral da República, Augusto Aras, entrava com novo pedido de inquérito junto ao STF para investigar as acusações de Moro em ação de mão dupla. “A dimensão dos episódios narrados revelariam a prática de ilícitos, imputando a sua prática de ilícitos, o que, de outra sorte, poderia caracterizar o crime de denunciação caluniosa”, argumentou Aras.

O jogo está posto. Enquanto isso, nesta sexta-feira o Brasil alcançava a marca oficial de 53 mil infectados pela Covid 19, com um saldo de mais de 3600 mortos.

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