Quem é que vai mesmo pagar a conta?

A semana abriu com movimentos simultâneos e antagônicos na corte do capitão Messias. Enquanto o presidente tratava de buscar abrigo no Centrão e tentando escudar-se da ofensiva da lei, o Judiciário saía para enquadrá-lo nos termos da Constituição.

Na segunda o ministro Celso de Mello do STF autorizou abertura de inquérito para investigar as acusações do ex-ministro da justiça Sérgio Moro contidas em seu pronunciamento de despedida do governo. O pedido de investigação havia sido feito pelo procurador geral da República, Augusto Aras. havia sido feito Em sua decisão Mello anota que o presidente estará sujeito às consequências jurídicas e políticas de seu próprio comportamento.”

Mais: para o ministro, a despeito dos amplos poderes que o sistema presidencialista confere ao chefe do executivo, “ninguém tem legitimidade para transgredir e vilipendiar as leis e a Constituição.” Moro deverá ser ouvido pela PF em até 60 dias.

Em outra ponta, a Justiça Federal de são Paulo garantiu ao Estadão o direito de acesso aos laudos de todos exames feitos por Bolsonaro para identificar possível contaminação por Covid 19 e determinou um prazo de 48 horas para que ele entregue os resultados. o Capitão, claro, deve recorrer.

Por sua vez, Bolsonaro em ofensiva para garantir sua governabilidade e a cobertura aos filhos dos inquéritos da PF, nomeou uma dobradinha palaciana e amiga da família: o advogado -geral da União, André Mendonça, vai para a Justiça no lugar de Moro, e Alexandre Ramagem, guindado da direção-geral da Abin para a direção geral da PF.

Se no pronunciamento-réplica do capitão a Moro já havia uma concordância implícita com as acusações, com a nomeação de Ramagem, Bolsonaro assina a confissão sobre o desvio de finalidade da iniciativa.

Quem conhece o DNA da PF garante que Ramagem não ter vida fácil. Isso se sua nomeação não acabar barrada no STF. Marco Aurélio Melo, sorteado relator da ação da Rede, que contesta sua nomeação pela proximidade com o clã bolsonarista, já sinalizou publicamente reprovação da forma com que Moro zarpou do governo.

Mas é assim que Messias espera levar seu (des)governo de agora em diante. Fechado na desa com os mecanismos de controle de Estado na mão, com os militares do Planalto pra fazer o meio campo e o Centrão na frente pra matar no peito pau diário no Congresso. De resto, contar com suas falanges e a disposição de ir pra rua trombetear a ascensão do mito.

E daí, rola? Já vi esse filme, diz Fernando Collor de Mello, do alto de sua experiência de bater em retirada do Palácio do Planalto, em 1992, pra não ser impichado, em entrevista para o UOL, nesta terça (28). “Pelo que já vivi, isso são favas contadas. “Se houver manifestação do Supremo indo para o Congresso, será autorizado esse processo imediatamente”, rebate o hoje deputado, que se recorda de quando pediu a seus seguidores saírem às ruas de verde e amarelo e deu de cara com multidões vestidas de preto. “Ali meu governo acabou.”

Mas e o Centrão… não seria a panacéia a um governo agonizante? “Tarde demais. Apoio nesse ponto, em contraponto à falta de apoio do Congresso, isso não dá certo. Eu vivi, não dá certo”.

Com um cenário desse a questão que emerge é sobre o papel do time de fardados nesse governo. Seja por fidelidade ou convicção (menos factível), o fato é que parece que irão até o fim carregando o piano. Até quando. Fernando Gabeira, na manhã de sábado, na Globonews, senão cabia uma reflexão por parte era a hora de pensar em um meia volta, volver, pensando em todo o esforço feito pelos militares durante as últimas década para recuperar a imagem das Forças Armadas perdida durante a ditadura.

Jânio de Freitas, na Folha de domingo, voltou ao tema , a partir de uma frase do vice do Brasil, Hamilton Mourão, proferida há um ano: “Se o governo falhar, a conta irá para as As forças Armadas. O mesmo Mourão, no episódio da demissão de Moro, veio a público dizer: “Perder Moro não é bom, mas vida que segue.”

Mas até quando seguiremos com esse desatino, ou pra onde, como pergunta Jânio, ao elencar as diversas faces do mal que atingem não só as Forças Armadas, mas ao País e pelas quais Bolsonaro deveria responder: mentiras, ligações milicianas, fraudes, incidentes internacionais, destruição de recursos nacionais, incentivos à violência, crimes de responsabilidade e contra a humanidade, entre outras mais. Qual é o limite da fatura que as Forças Armadas — ou o próprio país — são capazes de segurar?

Quem sabe faz a hora, não é mesmo?

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