Emiliano e Leilza: sobreviventes da Covid que intrigam a ciência

Dois casos de sobreviventes à Covid chamam a atenção em meio à tragédia que tem se convertido a disseminação do vírus. Ela é uma octogenária. Ele já ultrapassou a marca de um século. Tanto um como outro são símbolos de alento, representam a esperança equilibrista diante de uma espiral de mortandade que só cresce exponencialmente em todo o país. E ambos representam um enigma para a ciência.

Leilza Almeida Silva, pensionista, 82 anos, passou 47 dias internada, dos quais 30 na UTI da Santa Casa de Santos, no litoral de São Paulo. Infectou-se provavelmente a bordo de um navio de cruzeiro pela costa brasileira no início de março. Em terra, começou a tossir logo depois de desembarcar. E, conforme relato de sua filha Georgina Marinho, registado pelo portal G1, uma semana depois já registrava febre e sentia muita falta de ar.

Permaneceu em estado grave por 12 dias, sem nenhum sinal de evolução do quadro, até que passasse a respirar sem o uso de aparelhos. Não há registro de que nenhuma doença pré-existente.

José Emiliano, paraibano, 106 anos, recebeu alta na última segunda-feira (4), depois de uma visa sacra por hospitais da região metropolitana de João Pessoa, na Paraíba. Seu martírio começou no dia 21 de abril, quando deu entrada no Hospital Clementino Fraga, depois de ser testado positivo para Covid19.

Liberado seis dias depois, voltou a apresentar sintomas algumas horas após a alta, segundo depoimento de sua neta Carolinny Lima, também captado pelo G1. Por isso teve de ser encaminhado por pronto atendimento em uma UPA. O quadro então já era bem grave para um paciente de altíssimo risco: além dos sintomas tradicionais da Covid (tosse, febre e tremores), Emiliano apresentava forte infecção urinária.

Depois de intenso tratamento de recuperação, ele ainda teve que ser encaminhado uma terceira unidade hospitalar, desta vez para uma intervenção cirúrgica para desobstrução da uretra. Agora em recuperação, sua alta definitiva estava prevista para esta sexta (8).

Há vários registros no mundo de casos como o de Leilza e outros (raros) como de Emiliano. E isso se choca com a ideia inicial propagada sobre a Covid – desde os primeiros sinais emitidos pela China – , de que ela seria fatal às faixas da população acima de 60 anos e/ou portadoras de comorbidades. De fato, as estatísticas confirmam sua prevalência. Mas o alto índice de mortes registrado em faixas etárias bem inferiores têm intrigado cada vez mais os cientistas. Por que pessoas jovens e sadias sucumbem e gente com 80, 90, 100 anos consegue sobreviver à infecção?

“Justamente porque são pessoas centenárias”, responde Mayana Zatz, bióloga molecular, geneticista e professora do Centro de Pesquisas do Genoma Humano e Células-Tronco. Em entrevista à Globonews, no mês passado, Zatz explica que os centenários têm “o que a gente chama de genes protetores”

Ela conta que há vários estudos pelo mundo, desenvolvidos bem antes da pandemia do novo coronavírus, acerca da longevidade desse grupo raro. E o que se tem constatado é que muitos deles, mesmo obesos, sedentários e/ou fumantes conseguem se manter em boa saúde. E o mesmo se aplica a esse pessoal infectado pela Covid, que, ao que parece, é dotado de um sistema imunológico “indestrutível”.

A ideia agora, segundo Zatz, é partir para um estudo dos grupos extremos: de um lado, centenários sobreviventes e assintomáticos, e de outro, jovens e sadios, mas que detêm algum fator de risco. Pesquisa de longo prazo, mas que deve oferecer algum caminho para novas terapias.

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