O capitão e seus cometas no país dos bolsonaretes II

E não é que Messias decidiu inovar! – não, nada que surpreenda após a série de desatinos e barbaridades que ele vem colecionando dia a dia. Mas não deixa de ser sui generis a atitude do capitão nesta manhã de quinta (7). À frente de uma espécie de armada Brancaleone empreendeu marcha pela Praça dos Três Poderes até o Supremo. A missão? Ocupar a Corte. E fazer com que o presidente Toffoli engolisse de seus comandados o buraco financeiro em que se meteram com o isolamento social, cujo regramento a o STF decidiu delegar a governadores e prefeitos.

No grupo de valentes, representantes de vários setores da indústria que, segundo o capitão, sustentam 40% do PIB brasileiro e 30 milhões de empregos. A demanda era destinada a Messias, que os aguardava em audiência. Mas como assuntos dessa natureza certamente não são de sua competência, o capitão jogou a bronca no colo de Toffoli.

A tentativa de saia justa, com todo aparato midiático que a entourage tratou de carregar, não surtiu efeito. Toffoli, ainda que (consta) pego de surpresa, recomendou o que o bom senso recomenda: um comitê gestor capaz de planejar, com os entes da federação e demais poderes, o relaxamento gradual das medidas restritivas impostas em razão da pandemia e com isso fazer o complexo industrial voltar a funcionar como quer o baronato.

A fala do presidente do STF ainda evoluía, quando o capitão bateu os olhos no relógio do pulso: era hora de bater em retirada. Gesto semelhante e histórico foi o de Collor, ao certificar-se do horário antes de cravar sua assinatura de renúncia.

A mise-en-scène reivindicatória vem no momento em que, diante do colapso hospitalar batendo às suas portas, o lockdown (confinamento radical) passou a ser adotado em alguns estados, como Pará, em dez cidades da região metropolitana, e Ceará, na capital, e na iminência de estender-se a outras capitais, particularmente São e Rio, onde Crivella decidiu adotá-lo “parcialmente”. E nada melhor do que ter como interlocutor alguém tão afinado com suas teses. 

Paulo Guedes, um dos teóricos do batalhão, recorreu à linguagem médica para justificar o happening matinal: “Eles vinham dizendo que estavam conseguindo preservar os sinais vitais e agora o sinal que passaram é de que está difícil, a economia está começando a colapsar.”

O representante do segmento de brinquedos, Synésio Batista da Costa, foi taxativo: “Eu diria que a indústria está na UTI e ela precisa sair da UTI, por que se não as consequências serão gravíssimas”.

Consequências gravíssimas, sim, cara pálida. A depressão está aí deve se aprofundar dramaticamente. Mas o que dirá dos que morrem em casa ou em UPAs porque já não há sequer leito disponível? Aos que morrem sem atendimento e sequer são enterrados dignamente em razão da falência dos serviços funerários.

Seria apenas uma brincadeira, ao gosto do público alvo de Synésio, se não fosse a tragédia que continua a tragar a vida de brasileiros, elevando a curva de contágio ao patamar dos seis países mais afetados.

A despeito do aspecto circense, ideia desponta como mais uma insanidade de alcance criminoso. Nesta quinta-feira, o Brasil alcançou mais uma marca lúgubre: está próximo dos 10% dos registros de óbitos diários em todo o mundo. Dado que corrobora estudo da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto, que aponta o Brasil como o novo epicentro da Covid no mundo.

Mas aos insensíveis ao obituário e outros, como o professor Guedes, preocupados com os sinais da economia, fica a sugestão de que deem uma olhada nos sinais vitais da gente que se aglomera nas portas da Caixa à espera de um auxílio, que não chega por incompetência da burocracia estatal.

Quanto ao capitão, bom, Messias talvez tenha saído do encontro de hoje com a sensação de dever cumprido ou de pelo menos de ter atiçado mais uma vez seus pitbulls virtuais contra o Supremo. De resto continua a refazer seus laços com o Centrão, catapultando para a boca de cena personagens históricos do balcão da política brasileira.

Só não libera o que a Justiça pede: seu exame contra a Covid e o vídeo da reunião ministerial em que teria ameaçado Moro de demissão no caso da troca da PF, como determina o ministro Celso de Melo, do Supremo. O primeiro ele nega por razão pessoal; o segundo, por razão de Estado. Convém lembrar que ele próprio já se intitulou a própria Constituição.  Assim como tantas vezes já ouvimos a expressão “rasgou a Constituição”, das mais diversas fontes e vieses, talvez tenha chegado a hora de rasgar esta, de fato. Antes que seja tarde.  

Deixe uma resposta