Mourão entre o caos e a realidade paralela

Hamilton Mourão veio a público para por um pouco mais de lenha na fogueira. Em artigo para O Estado de São Paulo, Limites e Responsabilidades, o vice-presidente, em princípio, trata até de esboçar um retrato realista, ao levantar efeitos sociais e econômicos provocados pela pandemia da Covid 19 e que extrapolam a esfera da saúde.

Insofismável. Não só porque diz respeito à triste realidade brasileira, mas a todo o planeta – ainda que nossas mazelas sociais e econômicas sejam um fator de aprofundamento da tragédia. Mas a partir daí, o general da reserva passa a fazer conjecturas sobre as causas do que ele chama de “um estrago institucional, que já atingiu as raias da insensatez e está levando o país ao caos”. Em confronto com os próprios fatos, perfaz um caminho inverso até se alinhar a uma realidade paralela.

Para Mourão uma das (quatro) causas diretas para este estrago seria o grau de polarização vigente no país. E um dos principais focos radiativos seria a imprensa, que, segundo ele, tem assumido uma parcialidade nociva no enfrentamento da crise. Até sugere que a mídia reveja “seus procedimentos” e passe a acolher também pontos de vista mais alinhados com o Planalto, quanto à retomada da economia via flexibilização do isolamento social.

Nenhuma palavra sobre os desatinos e a retórica belicosa do presidente – a menos que o diagnóstico de que “tornamo-nos incapazes do essencial, que é sentar-se à mesa, conversar e debater” seja uma indireta a seu a seu comandante, o capitão Messias. Fora isso, nenhum sinal de autocrítica.

Mourão aponta ainda contra governadores, magistrados e políticos, que “esquecem que o Brasil não é uma confederação” e, seguindo postulado liberal americano do século 18, argumenta que eles deveriam entender que o governo federal é mais “sensato e eficaz” quanto à solução de problemas do que estados isoladamente. Há aí talvez uma dissonância cognitiva, porque sensatez e eficácia é tudo o que não se coaduna com o governo Bolsonaro.

O vice cita ainda a interdependência dos Poderes para reclamar de uma suposta “usurpação das prerrogativas do Executivo” – alusão à recente decisão do ministro Alexandre de Moraes do STF em barrar a indicação de Alexandre Ramagem para a direção geral da Polícia Federal, por desvio de finalidade, como exigia e ainda exige o capitão.

Na análise de Mourão para o cenário caótico de hoje ainda contribuiriam personalidades que usam seu prestígio que desgastar a imagem do país ao acusar o governo brasileiro de devastar a floresta amazônica. O general se esquece que, Bolsonaro, apesar de se autointitular a própria constituição, representa quando muito seu próprio governo e é o maior responsável pela ruína em que se transformou a imagem do país, com sua política negacionista e insana no combate à Covid 19. Se esquece que própria comunidade científica o considera a maior ameaça, como registra em editorial a revista britânica The Lancet, e a mídia o trata como um pária.  

Mas de todo esse arroubo retórico de Mourão, o que causou certo frisson foi a frase em que arremata a argumentação inicial do texto: “[a pandemia] por suas consequências, pode vir a ser [uma questão] de segurança.” Para muitos foi um sinal de advertência do general, até por suas manifestações em passado recente, quando considerou a intervenção militar uma opção em meio ao terremoto que sacudiu a gestão Temer.  

Revendo o texto, porém, é mais provável que Mourão estivesse falando aos seus, em defesa da corporação, já que no fundo ele reafirma as jogadas do capitão, que tem insistido na tecla da ameaça de uma convulsão social como forma quebrar as restrições de circulação determinadas pelos governadores.

Assim, o artigo de Mourão teve o sentido de deixa para uma mais uma investida de Bolsonaro contra eles, particularmente contra Dória. Ainda no dia da publicação, Messias conclamava o empresariado a jogar a partir pra guerra e jogar pesado para que governadores retomassem a economia.

Ainda que não surtisse efeito imediato, a tática teve o sentido de minar resistências, a mesma utilizada no front interno contra Nelson Teich, que nesta sexta-feira (15) sucumbiu abandonando o barco bolsonarista – depois de ser fritado e enquadrado para chancelar protocolo para uso de cloroquina. Em menos de um mês cai mais um ministro da saúde, em meio a uma disseminação inclemente do vírus.

Mais um estrago entre tantos outros que estão de fato levando o país ao caos, como acertadamente identificou Mourão. Convém lembrar que o general da reserva é o segundo na linha sucessória presidencial. Conviria que ele calibrasse a mira e modulasse o tom.  

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