A cartada do feriadão e a batata (no forno) do capitão

A semana termina nesta terça (19) na capital de São Paulo. O prefeito Bruno Covas decretou feriados na quarta e quinta, antecipando as datas de Corpus Christi e o Dia da Consciência Negra. Na sexta haverá ponto facultativo, e o feriadão poderá prolongar-se até a próxima terça, caso a Assembleia vote nesta quinta (21) a antecipação do 9 de julho, Dia da Revolução Constitucionalista para todo o Estado.

A decisão de esticar uma semana de feriados vem no momento em que o estado consolida-se como o epicentro da pandemia no País. Na Grande São Paulo a taxa de ocupação de leitos de UTI, da rede pública, bateu em alarmantes 88%.

E ela primeira vez o País ultrapassa a barreira dos mil mortos em 24 horas e alcança o triste lugar no pódio de maior número de contaminados no mundo, atrás de Estados Unidos e Rússia, e o terceiro em número de óbitos. Segundo Covas a media é uma das “últimas cartadas” para frear a escalada da disseminação do vírus e não venha colapsar a rede hospitalar, depois de duas iniciativas erráticas de restringir a circulação de carros na cidade.

“Estamos perdendo essa batalha contra o vírus. Essa é a realidade”, advertiu o coordenador do Centro de Contingência ao Coronavírus, Dimas Covas. “O vírus nesse momento está vencendo a guerra. Eu não enxergo esses dias como feriados, mas como dias de batalha”.

O efeito colateral da medida é a possibilidade de o paulistano ir para o litoral, como costuma ocorrer nos feriados prolongados. Em razão disso, prefeitos das cidades da Baixada Santista já avisaram que não vão aderir ao decreto do feriadão e rezam para que sus praias não se transformem no aglomerado que estamos acostumados a ver em no dia a dia em São Paulo.

Enquanto isso no Planalto vive-se uma realidade paralela. O cargo de ministro da Saúde ainda continua em aberto depois da saída de Nelson Teich. Não se pode imaginar algo mais bizarro em meio à maior emergência sanitária da história contemporânea.

O capitão Messias decidiu manter o general Eduardo Pazuello na interinidade da pasta, que por sua vez tratou de fazer um puxadinho da caserna, ao nomear mais nove militares para escalões inferiores do ministério. E seguimos sem qualquer plano por parte do governo para o combate à pandemia (bobagem esperar isso), seja para a saída do isolamento. E o capitão segue em sua cruzada de sabotagem às medidas restritivas impostas por governadores.

O cenário de descalabro é tanto que levou o diário francês Le Monde a dar destaque à “catástrofe brasileira que Bolsonaro ignora”. “Há algo de podre no reino do Brasil”, escreve o jornal em seu editorial. “Enquanto no passado os generais reivindicavam a defesa de uma democracia atacada, o Brasil de Bolsonaro habita um mundo paralelo, um teatro do absurdo onde os fatos e a realidade não existem mais. Nesse universo sob tensão, alimentado por calúnias, incoerências e provocações mortíferas, a opinião se polariza a partir de ideias simplistas, mas falsas.”

Esse foi um dos destaques importantes da curtíssima semana para os paulistanos. O outro foi a acusação do empresário Paulo Marinho de que a Polícia Federal teria segurado uma investigação contra Flavio Bolsonaro e seu assessor Fabrício Queiroz para não prejudicar a eleição do capitão.

Marinho é ex-aliado de Messias e suplente de Flávio no Senado, o 01, cedeu sua casa para comitê de campanha em 2018. E certamente sabe das coisas, assim como Gustavo Bebianno, que já havia cantado a bola de que havia um esquema na PF pra não prejudicar a campanha de Bolsonaro.

O próprio Queiróz, flagrado em uma conversa por whatsapp, em outubro do ano passado, dava uma ideia da situação: “O Ministério Público está com uma pica do tamanho de um cometa parta enterrar na gente. E não vi ninguém agir”. O tal do espeto parece ganhar volume a partir de agora.

O caso a partir se insere no inquérito aberto para apurar denúncias de Sérgio Moro que saiu da Justiça atirando contra o capitão de interferência na PF. Os desdobramentos se multiplicam e rápido.

Hoje a Folha já saiu com reportagem sobre a contratação de um escritório de advocacia de um ex-assessor envolvido no caso de acobertamento da PF. O contrato no valor de 500 mil reais teria sido bancado pelo PSL, com fundo partidário, a pedido de Flavio Bolsonaro.

Hoje também o ex-superintendente da PF do Rio, Carlos Henrique Oliveira de Souza, aquele que teria caído para cima, segundo o capitão Messias, ao ser promovido para a direção executiva da PF, mudou seu depoimento no inquérito e revelou que o diretor-geral da Abin, o preferido do capitão, já armava a mexida na direção da superintendência da PF no Rio antes de ser nomeado.

A batata do capitão começa a assar.

“O que se está esperando no Parlamento para começar o impeachment”, perguntou o jurista Walter Maierovitch em entrevista ao Uol. “A cabeça desmobiliada de Bolsonaro o leva a fazer prova contra si próprio. O que existe agora é prova provada.”

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