O inconcebível, o inacreditável, o bufo e o bizarro

Não se pode dizer que o vídeo da reunião ministerial de 22 de abril traga alguma grande descoberta — apenas para associar o que a data em princípio evoca. A rigor nada do que foi registrado do encontro revela algo do que cada um dos participantes já não tenha revelado antes: falta de civilidade, truculência, tendência golpista, pusilanimidade, histeria, insanidade.

Mesmo a questão de fundo – motivo do inquérito aberto no STF, que são as acusações de Sérgio Moro de que Bolsonaro queria intervir na Polícia Federal – parece não deixar dúvidas quanto ao papel do capitão Messias no episódio. Pelo que se vê no vídeo, somado a tantas outras provas que Bolsonaro continua a produzir contra si, só confirma as delações.    

Mas vale a muito a pena assistir a esse verdadeiro show de horrores, não só por interesse político, como também antropológico, principalmente pelo que veio de forma fortuita à tona. Além de desvarios múltiplos, a peça bufa inclui ainda ataques a outros Poderes, exortação à reação das Forças Armadas contra iniciativas e adversários, ofensas a ministros do Supremo, pedido de prisão para governadores e prefeitos que que impõem isolamento social e por aí vai.      

Como sintetizou o governador do Maranhão, Flávio Dino, em publicação: “Na forma e no conteúdo, a tal reunião ministerial revela um repertório inacreditável de crimes, quebras de decoro e infrações administrativas. Além de uma imensa desmoralização e perda de legitimidade desse tipo de gente no comando da nossa Nação”, manifestou-se em sua conta no Twitter. Ou como classificou a Folha, em editorial desse domingo (24): “o encontro para a história dos 130 anos da República como um dos episódios mais execráveis do exercício do poder presidencial.”

Entre a coleção de conspirações, torpezas e vilanias, porém, duas se sobressaem: a defesa do armamento da população por parte do capitão Messias e a formalização da doutrina do anti-ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, baseada na destruição da estrutura jurídica ambiental, enquanto o foco da sociedade e da mídia está concentrado no combate à pandemia.

Na primeira Bolsonaro confessadamente prepara e estimula falanges para um confronto civil, a pretexto de autodefesa da população. Só por essa passagem deveria responder criminalmente. Na segunda, Salles abertamente atenta contra sua pasta e os recursos naturais do país. Em condições normais, seria caso de exoneração sumária. Neste caso, particularmente, é de se esperar que, na eventualidade remota de que o capo seja demitido. E se for, haverá um novo testa e ferro tão mais desqualificado para a função, uma vez que Salles foi escalado justamente para defender interesses do setor mais retrógrado do agronegócio.

Desde que foi levantado o sigilo do vídeo, Bolsonaro e a ala fardada de sua banda ministerial têm se empenhado em confronto com o STF, em especial ao ministro Celso de Mello, relator do inquérito. Na iniciativa mais incisiva, o general Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional, assinou nota da presidência em que em que diz que é inconcebível e, até certo ponto, inacreditável o “pedido de apreensão do celular do presidente da República”. E advertiu que tal iniciativa poderá ter consequências imprevisíveis para a estabilidade nacional.”   

Aqui há algo que foge à razão e ao meio destinado ao contraditório. Celso de Mello não determinou apreensão do celular do presidente, como a corte bolsonarista parece ter apreendido. Simplesmente, como de praxe processual, encaminhou para análise da Procuradoria Geral da República solicitação encaminhada por partidos de oposição, entre eles o PV. Logo a nota não só transborda a realidade, como invade competência: não caberia ao GSI se manifestar, e sim a advocacia Geral da União.

Logo, como disse o Estadão, a nota basicamente, é em si inconcebível e inacreditável. Menos para militares da reserva, que vieram a público em outra manifestar apoio ao escriba Heleno. E, claro, para o próprio capitão, o autor intelectual da ameaça. “Só se eu fosse um rato para entregar o celular”, justificou o capitão a fleugma própria de um estadista.

E mais uma vez dobrando a aposta, nesta segunda (25) o capitão Messias apressou-se em manifestar-se a respeito do inquérito em suas redes sociais, com a reprodução de um trecho da lei de abuso de autoridade – referência direta a Celso de Mello.

“Divulgar gravação ou trecho de gravação sem relação com a prova que se pretenda produzir, expondo a intimidade ou a vida privada ou ferindo a honra ou imagem do investigado ou acusado. Pena – detenção de 1 (um) a 4 (quatro) anos”.

Cabe comentário? Bizarro, talvez.

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