Qual brasileiro cara pálida?

A ameaça que paira sobre a Amazônia não vem só do fogo ou da motosserra. A atividade extrativista, impulsionada pelo capital externo e a ofensiva bolsonarista sobre a região, tem se convertido numa das principais frentes de pressão sobre a floresta. Só que agora mirando o subsolo: petróleo, gás, metais preciosos e minerais estratégicos.  

Estudo da organização não-governamental Amazon Watch, Investindo no Petróleo Bruto da Amazônia, divulgado em março passado e reproduzido agora pelo portal Envolverde, aponta para um mega em projetos de extração de petróleo e gás na Amazônia ocidental, nos últimos três anos.

A faixa de extração se estende por uma área de 30 milhões de hectares, entre os territórios da Colômbia, Peru e Equador. Situada na nascente do Rio Amazonas, a região é conhecida como Bacia Sagrada das Almas, área de maior diversidade do planeta e abriga cerca de 500 mil indígenas.

São 6 bilhões de dólares despejados nos cofres de gigantes do setor como GeoPark Ltd. – empresa com sede nas Bermudas e que mantém plataformas em seis países da América do Sul, incluindo o Brasil – e o seu braço recém-adquirido Amerisur, a canadense Frontera Energy e a Andes Petroleum Ecuador Ltd., de capital chinês. Entre os potentados responsáveis pelo financiamento da exploração petrolífera estão bancos e fundos internacionais, como JP Morgan, Citigroup, Goldman Sachs, Chase, HSBC e outros.

O relatório ressalta o envolvimento da BlackRock, a maior das três grandes (Big Threes), a maior entre as três grandes empresas de gestão de ativos do planeta, no projeto. Em janeiro passado, a BlackRock sinalizou alinhamento ao Climate Action 100 +, iniciativa para que investidores pressionem as empresas mais poluentes a se engajarem no combate ao aquecimento global. Seu papel no empreendimento, a despeito de seu aceno às metas do Acordo de Paris, segue como dos mais sinistros. Não à toa. A estimativa é de que ali existam algo como 5 bilhões de barris de petróleo. Pelas projeções do AW, reservas com potencial para emissão de 6 bilhões de toneladas métricas de dióxido de carbono.

O estudo destaca a associação direta entre a destruição da floresta e às mudanças climáticas, já que sem esta não há absorção dos gases de efeito estufa, como também desestabiliza os padrões climáticos e põe em risco a sobrevivência de toda a forma de vida que lá habita, particularmente os povos indígenas.

O diretor de clima e energia da Amazon Watch sintetiza a situação: “No momento em que o mundo precisa correr para proteger a Amazônia, esses bancos estão financiando sua destruição e estão empurrando seu povo e nosso planeta para mais perto da catástrofe climática. Projetos de perfuração na floresta tropical sem o consentimento dos povos indígenas serão confrontados com oposição que os deixa como ativos ociosos.”

Protesto liderado por indígenas da nação Sapara, do Equador, contra exploração de petróleo em suas terras. Foto: Amazon Watch

Nema Grefa, líder da nação Sapara, do Equador, chama a atenção para a luta pela sobrevivência e pede ao mundo que promover formas de energia alternativa renovável que não dependam da exploração dos recursos naturais e proteja as áreas mais vulneráveis do mundo. “Lutamos há mais de 10 anos para garantirmos que as empresas de extração de petróleo não entrem em nosso território, porque representam grave ao nosso bem-estar social, ambiental e cultural.”

Em outra ponta, no nordeste de Roraima, em uma área conhecida como Terra Indígena Raposa Serra do Sol, a busca é pelo ouro, diamante e outros minerais e metais, como o nióbio. Historicamente, a região de 1,7 milhão de hectares, foi cenário de disputa com arrozeiros, que haviam comprado as terras de antigos fazendeiros, no início da década de 1970. Em 2009 o STF determinou a retirada de agricultores e não-índios, reconhecendo a demarcação contínua da reserva, onde hoje vive uma população de cerca de 22 mil indígenas, divididos entre cinco etnias.

O tiro para a nova largada da mineração ilegal foi dado por Bolsonaro logo depois de ser eleito presidente, em dezembro de 2018. “É a área mais rica do mundo. Você tem como explorar de forma racional. E no lado do índio, dando royalty e integrando o índio à sociedade.” Em outra oportunidade, registrada em uma live e disponível na rede, o capitão revela seu alvo preferido na reserva. “Eu sonho, quem sabe um dia, termos o Vale do Nióbio.”

Apoiada nos devaneios do capitão Messias, uma onda invasora de garimpeiros passou a ganhar corpo desde então. Não mais pelo método tradicional, na mão, como o de Serra Pelada, cujas imagens ganharam o mundo nos anos 80. O cenário na Raposa é tomado por maquinário pesado, escadeiras e trituradores de pedra, capazes de grandes extrações de ouro, em parte contrabandeado pra fora do país.  

Em março último, segundo reportagem de A Pública, de Vasconcelo Quadro, operações da Polícia Federal, com apoio do Exército, detectaram bases estabelecidas de extração de ouro, entre municípios de Normandia e Uiramutã, com um sistema de divisão de partilha bem definido, entre garimpeiros proprietários de máquinas e parte da comunidade cooptada por um quinhão na extração.

O capitão Messias pode não ter ainda realizado seu sonho de transformar a Raposa Serra do Sol em um Vale do Nióbio, mas certamente já estabeleceu uma cabeça de ponte naquelas terras, manobrando para atrair justamente lideranças locais interessadas em confrontar o poder  do Conselho Indigenista de Roraima, legítima entidade representativa daqueles povos, como registra a reportagem.

O alcance e os efeitos dessa ofensiva podem ser devastadores. Não só por seu alto potencial de degradação ambiental e seus reflexos, mas também pelo risco de propagação da Covid-19 entre a comunidade, de resto já atingida pelos efeitos do mercúrio utilizado no garimpo.       

“Onde tem garimpo, tem destruição. Quem ganha são garimpeiros não-índios, empresários que levam as máquinas dentro das terras indígenas e comerciantes que vendem os insumos para mineração, como o mercúrio. A gente já sabe o custo disso em saúde”, diz Edinho Batista de Souza, vice-presidente do Cir, para quem “a motivação do governo por trás do projeto são interesses de empresas multinacionais americanas e canadenses” chancelados pelo governo pelo cã Bolsonaro.

O projeto que regulamenta a atividade do garimpo em terras indígenas não deve constar da pauta de votação tão cedo – com a concordância o autor, o senador Chico Rodrigues (DEM-RR), que retrocedeu diante da repercussão dentro e fora do país. Mas ele promete retomar a ideia assim que houver brecha. E para isso conta não só com a benção de Bolsonaro, como da própria doutrina militar baseada numa tese arcaica de ocupação da Amazônia e que voltou à ordem do dia na corporação: integrar para não entregar.

Nas palavras do general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional e ex-comandante militar da Amazônia: “É impossível preservar a Amazônia como lenda, floresta verde”, disse certa vez a uma plateia de estrelados de farda no Clube Militar. “O que depende de nós é fazer com que o desenvolvimento aconteça de forma sustentável”. E resumiu: “Como um brasileiro não pode entrar numa terra só porque não é indígena”.

Só cabe perguntar: qual brasileiro cara pálida? Enquanto isso as invasões nas terras indígenas se multiplicam.

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