Um Bolsonaro só já não basta?

Os desdobramentos das manifestações pró-democracia realizadas, no último domingo (7), deverão ser melhor avaliados no decorrer das próximas semanas. Convém lembrar que estamos em meio a uma pandemia – e que houve um racha entre forças de oposição –, o que fez com que muita gente optasse por não se expor.

Supostamente espera-se que o movimento possa ganhar força a partir daqui. De qualquer maneira, serviu pra quebrar o monopólio que o capitão imaginava ter sobre a rua. É certo que o Cavalão, como era chamado nos seus tempos de farda, refugou, diante do número de manifestantes contrários pelo país afora, que na véspera ele havia chamado de terroristas e marginais desocupados. “Estão começando a botar as mangas de fora”, disse o capitão, já na manhã da segunda (8) para sua claque habitual de descerebrados no cercadinho do Palácio do Alvorada.

Para o capitão Messias manifestar-se pela democracia é ato terrorista. Já desfilar pela Praça dos Poderes como faz sua turba, é liberdade de expressão. Quem diz isso é o mesmo cidadão que um dia ameaçou explodir quartéis e uma adutora no Rio e por isso foi convidado pelo Exército a pendurar o coturno.

As considerações, claro, foram acompanhadas por mais uma ameaça, algo que se tornou uma praxe na sua tática de ir corrompendo as instituições. Mas essa em especial chamou a atenção pela síntese com que encerra sua trama à frente do Planalto. “Vocês têm razão no que pleiteiam e no que falam. Eu peguei um câncer em tudo o que é lugar”, disse em tom em tom de campanha. E emendou: “Eu vou indicar o primeiro ministro do STF agora em novembro. O primeiro”, referindo-se à aposentadoria do decano Celso de Mello, do STF. “A gente vai arrumando as coisas devagar aqui”.

Arrumar as coisas tem um sentido inequívoco. Elio Gaspari sacou bem a história ao relacionar três abordagens de diferentes personagens sobre o tema: “Quando os professores José Artur Gianotti,  Denis Lerrer Rosenfield e a deputada Joice Hasselmann (PSL-SP) dizem uma mesma coisa, é bom que se preste atenção”, escreveu em sua coluna desta terça (9).

A fala de Rosenfeld condensou o cenário: “No caso da experiência venezuelana, considerada por Lula um exemplo de democracia, processou-se a subversão da democracia por meios democráticos. As instituições democráticas foram inicialmente preservadas, enquanto o seu interior foi progressivamente minado. A imprensa e os meios de comunicação em geral foram, passo a passo, calados, o Legislativo perdeu suas funções, com o presidente passando a legislar por decretos, e o Supremo Tribunal, após ser atacado, foi cooptado. Milícias foram criadas e passaram a violentar e controlar os cidadãos. No Brasil, estamos vivendo um processo semelhante nos seus inícios, só que de sinal trocado.”

Para ficar só no factual, devemos pensar sobre a questão da substituição no STF. Mais precisamente sobre o perfil deste substituto. Será do tipo terrivelmente evangélico, como o próprio capitão Messias já aventou? Assustadoramente pusilânime, como se receia? Ou assombrosamente fasci-reacionário, como se imagina?

São menos de seis meses até que o Senado Federal possa descascar o abacaxi que será a apreciação do nome indicado ao posto. Até lá muita água vai rolar e a questão é saber se o capitão segura a onda no rescaldo pós-pandemia. Um tempo razoável de reflexão também para aqueles que rejeitam manifestos pró-democracia e que talvez devessem repensar se um Bolsonaro só já não basta.

Como observou Gaspari, apoiado na história, muitos se deram mal por não levarem em conta o que dizem os três personagens citados.   

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