Um dilúvio de plástico sobre nossas cabeças

Uma canção de Bob Dylan, do começo dos anos 60, A Hard Rain Is Gonna Fall (Vai Cair Uma Chuva Pesada), converteu-se em hino pacifista em um cenário marcado pela Guerra Fria e ameaçado pela corrida nuclear, ainda que a letra da música comportasse interpretações existencialistas. Dada a atemporalidade de seus versos, porém, a cada dia seus versos ganham nova dimensão diante das ameaças que se multiplicam sobre nossas cabeças.

A mais recente da atmosfera e em forma de micropartículas. Estudo de cientistas da Universidade de Utah, nos Estados Unidos, publicado na revista Science nesta quinta (11), revela que um dilúvio de pelo menos 1000 toneladas de partículas microplásticas, substancialmente proveniente de correntes atmosféricas globais vêm sendo depositadas em parques nacionais, como o Grand Canyon e outras áreas desérticas dos Estados Unidos. Isso equivale a até cerca de 300 milhões de garrafas pet descartadas.

O estudo é pioneiro no cálculo da poluição microplástica da atmosfera, pelo menos em áreas de conservação americanas, e vem encorpar pesquisas sobre o movimento desse material ao redor da Terra. Há cerca de um ano uma expedição de cientistas encontrou essas micropartículas de plástico sedimentadas ao gelo durante perfurações no Ártico, demonstrando a sua presença em lugares remotos do planeta.

Até então considerava-se que o oceano e a fauna marinha – e por extensão toda a cadeira alimentar – eram quem mais sofriam os impactos do emprego massivo e o descarte irracional de produtos à base de plástico. Já no Fórum Econômico Mundial de Davos, de 2016, especialistas já alertavam para algo até então surreal: “Até 2050 os oceanos abrigarão mais detritos plásticos do que peixes”. Uma perspectiva sombria a partir de uma contabilidade assombrosa: anualmente são perdidos de 80 a 120 bilhões de dólares com embalagens plásticas.

“Criamos algo que não desaparece. E agora circula pelo mundo”, comenta Janice Brahney, uma das autoras do artigo para a Science e biogeoquímica da Universidade de Utah.

As descobertas de Brahney aconteceram meio por acaso. Originalmente ela se propunha a estudar como nutrientes chegavam aos ecossistemas levados pelo vento. A partir de análises microscópicas, encontrou fibras provavelmente provenientes de tapetes e roupas, mas também outras usadas em cosméticos e produtos de uso pessoal, além  de componentes de tintas liberadas a partir de pinturas sob a forma de spray – este um dado novo, segundo especialistas, que aparece para engrossar o potencial arsenal de poluição atmosférica.

Identificados as partículas poluentes, seu trabalho baseou-se em modelos climáticos para analisar, seguidamente por um período de 48 horas, as tempestades responsáveis pelo transporte das micropartículas. A especialista descobriu então que a maior parte provavelmente viajava por longas distâncias e eram levadas por tempestades que haviam passado sobre grandes centros urbanos.

Em associação com um grupo de cientistas especializados nos diversos aspectos atmosféricos, Brahney pesquisa mais a fundo o movimento dessas partículas nas correntes atmosféricas, de onde eles vêm e para onde vão, quanto tempo se mantêm no ar. Segundo ela, esse material pode estar em suspensão há anos ou décadas. Primeiro podem ter se depositado em campos agrícolas, no deserto ou mesmo no oceano. E depois “sugadas” de novo pelo vento, como parte do ciclo global.

Neutralizá-las parece algo impensável para humanidade, pelo menos para as próximas décadas. Banir o plástico, ao menos da escala epidêmica com que é empregado, é tarefa urgentemente necessária.  

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