Uma tragédia anunciada e o diagnóstico do dr. Pazuello

Cerca de 10 mil brasileiros já morreram em decorrência da Covid 19 em municípios com menos de 100 mil habitantes. Os dados referem-se até o último dia 6 de julho e forma entabulados pelo site de A Pública, com base informações do Ministério da Saúde. Esse é mais um aspecto sinistro do processo de interiorização da pandemia pelo qual o país atravessa.

As causas para esse cenário desolador, como se pode imaginar, apontam para a absoluta falta de infraestrutura médica, além é claro, da falta de uma política voltada para o combate da doença. De acordo com a apuração de A Pública, 80% desses municípios não tinham um só leito de Unidade de Terapia Intensiva e mais de três meses depois de registrada a primeira morte no país, a quase totalidade deles seguiram sem qualquer recurso de UTI.

Levando-se em conta regiões que abrangem municípios vizinhos a essas localidades, 50% em tempo algum dispuseram desses recursos. Detalhe: como lembra a reportagem, 88 milhões de brasileiros vivem em cidades com menos e 100 mil habitantes.

Para o ministro interino Eduardo Pazuello, general de divisão e especialista em logística, o cenário o horizonte pandêmico parece ser outro. Em entrevista à revista Veja, Pazuello não só desconsiderou a testagem em massa (“não é essencial”), preconizada pela OMS, como atacou a estratégia do Ministério inicialmente adotada por Mandetta de só procurar atendimento médico a partir do agravamento da doença –  protocolo então recomendado para evitar a sobrecarga da rede pública.

Segundo ele, isso teve um custo definitivo sobre a mortandade que temos notícia pela TV diariamente. Matamos quantas pessoas com isso? Loucura”, diz. “O percentual de morte sobre para 70% ou 80%. E isso não está dito em nenhum lugar, principalmente por quem agora nos critica”, ele se defende.

E mais: para o general, o “diagnóstico deve ser clínico, do médico. E o diagnóstico deve ser pela anamnese, por uma radiografia de pulmão, por um exame de tomografia…” Como se vê, Pazuello enxerga outra realidade, certamente não a que temos pela frente.

O diagnóstico da situação parece fazer com que o general Pazuello acredite que esteja logisticamente no caminho certo, sob os auspícios do capitão – que já acenou que a interinidade de seu na pasta seguirá prestigiada. Mas para se garantir da onda de críticas contra sua interinidade longeva e claudicante, Pazuello resolveu abrir o cofre e liberar parte dos 40 bilhões de reais incluídos no orçamento emergencial destinados ao enfrentamento da doença.

Se há um efeito colateral positivo da fala do ministro do STF Gilmar Mendes, que tachou de genocida a política na Saúde do desgoverno, está no desembolso dessa grana, confinada mais a título de uma batalha política. Sobre os termos usados por Mendes, ainda que controversos e que provocaram a grita dos fardados, a questão acabou sendo levada para a mesa. Afinal, como classificar a conduta do governo para as camadas mais vulneráveis da população e as minorias étnicas, como os indígenas e os quilombolas? Negligência sanitária? Abandono deliberado?

Uma responsabilização perante o Tribunal Penal Internacional não está descartada, como advertiu Mendes. E todos no governo sabem disso, fardados ou não.

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