O cerco aos povos do Xingu

Pela primeira vez em meio século, não será realizado o Kuarup, ritual que os indígenas do Xingu fazem para celebrar a memória dos mortos – assinala a Agência Pública, em reportagem de Caio de Freitas Paes. É que a vida urge diante do cerco àqueles povos, acossados pela disputa da terra, pelo avanço da Covid 19 e pelo fogo das queimadas que consome tudo à volta.

Entregues à própria sorte, os indígenas da bacia do Xingu, até meados de julho, contabilizavam os contaminados na casa do milhar e ao menos 15 mortos. Somado à entrada de agosto e o recrudescimento da seca, que este ano deve-se prolongar pelo menos até outubro, trazendo a toda região uma atmosfera sombria. 

A política antiambiental de Jair Bolsonaro tem produzido efeitos nefastos a todo patrimônio natural e sua diversidade. Mesmo iniciativas de caráter aparentemente mitigador, como o decreto do MMA, que suspendia as queimadas por 120 dias, tiveram efeito de despejo de gasolina no fogo. Isso porque seu próprio enunciado traz uma ponta falaciosa: estão proibidas, mas …“ficam autorizadas queimadas controladas em áreas não localizadas na Amazônia Legal e no Pantanal, quando imprescindíveis à realização de práticas agrícolas…”

O adendo é desmistificador. E o resultado, absoluta catástrofe. As queimadas na Amazônia saltaram, em julho, quase 30% em relação a julho do ano passado. E o Pantanal registrou um aumento de 530% nos focos de incêndio nesse primeiro semestre em relação ao mesmo período de 2019. É disparado o mais atingido entre todos os biomas brasileiros.

Os dados provêm de uma ferramenta interativa lançada mês passado pelo Instituto Centro de Vida, destinado a monitorar as queimadas no Pantanal no período de “proibição.”

“Com um incêndio florestal em uma vegetação com árvores seculares, como os da região amazônica, poderá levar alguns séculos até que se recomponha”, já alertava o pesquisador do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola, Roberto Palmieri, no ano passado, quando as queimadas na região já atingiam níveis inimagináveis.

Na esteira desses registros, vem a Procuradoria-Geral da República de Augusto Aras com seu revisionismo instantâneo alinhar-se ao Planalto ao decidir, em junho último, convocar para discussão os envolvidos em uma disputa da Terra Indígena Kayabi, contrariando orientação do Ministério Público Federal. Trata-se de uma área de 80 mil hectares, situada na divisa entre o Mato Grosso e o Pará, e demarcada em abril de 2013, conforme assinala A Pública.

Segundo a Agência, os interesses em jogo são múltiplos e o governo de Mato Grosso reivindica a posse terra em favor em favor de grandes exploradores da região, encabeçado pelo megafundo de investimentos canadense Brookfield. Apoia-se para isso em “áudios, documentos e relatórios” aos quais teve acesso e que comprovariam a pressão para que os indígenas cedam aquela parte de suas terras, que se espraiam por direito assegurado constitucionalmente por 1 milhão de hectares, entre aqueles dois estados.

Esse cenário explosivo e ameaçador, aos olhos do capitão, porém, aponta para um horizonte transformador de “desregulamentação das políticas ambientais” e a “exploração de recursos minerais em terras indígenas”. Uma saída, segundo ele, à pobreza crônica das aldeias dos povos tradicionais do Brasil.  

Desmatamentos e queimadas? Apenas uma faceta do problema associada à subsistência. “Uma parte considerável das pessoas que desmatam e tocam fogo é indígena, caboclo”, diz convictamente o capitão. “No nosso decreto, se proibir esses caras de tacar fogo, se chegar o decreto lá, se ele não fizer a agricultura tradicional ali, não vai ter o que comer.”

Admirável a elaboração do pensamento supremacista Messias. Talvez faltem apenas alguns adereços, como espelhos, apitos e chocalhos. Mas isso se arranja. Fácil.

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