Hiroshima e a ameaça nuclear no horizonte

Neste 6 de agosto, completam-se 75 anos desde que que os Estados Unidos fizeram o primeiro ataque nuclear da história sobre Hiroshima, no Japão. A Folha de domingo (2) trouxe matéria extensa sobre o assunto, com relatos de três sobreviventes da tragédia, –os hibakusha, em japonês – que migraram para o Brasil.

Estima-se que bomba despejada por um bombardeiro B29 na manhã daquela segunda-feira, e chamada no linguajar pop dos americanos de Little Boy (Garotinho), tenha matado 80 mil pessoas instantaneamente e destruído 70% da cidade. Uma segunda investida, desta vez sobre Nagasaki, três dias depois, fez o império japonês curvar-se, imerso na devastação e no horror. Calcula-se que cerca de 200 mil pessoas tenham sucumbido ao impacto das bombas e pelos efeitos colaterais nos meses seguintes.

Apesar do efeito avassalador dos ataques, esses artefatos hoje seriam comparados a traque diante do poder de destruição que representa o atual arsenal nuclear. Atualmente há 13400 ogivas de posse de 9 países, sendo que 90% delas pertencem a Estados Unidos e Rússia, de acordo com o 51º anuário do Instituto Internacional para a Paz de Estocolmo (Sipri), lançado em junho último. Destas, 3720 estão baseadas junto a forças operacionais, entre as quais, 1800 em alto estado de alerta.

Normalmente cita-se o clichê que estima o número de vezes que a Terra poderia ser destruída com esse arsenal em estoque. Como se houvesse algum sentido. Não precisa saber muito do assunto pra imaginar que só uma parcela pequena disso sobre nossas cabeças já seria o suficiente para inviabilizar qualquer forma de vida sobre o planeta.

Acordos e tratados de contenção e redução cada vez mais ganham a relevância de mero protocolo, na medida em que vão sendo colocados no freezer. E isso vem desde que o primeiro, o Tratado de Não-Proliferação de Armas, em 1970, que estabeleceu uma espécie de reserva a cinco países o direito de posse de armas nucleares – pelo fato de terem feito testes com a bomba antes de 1º de janeiro de 1967 – e que mantêm poder de veto no Conselho de segurança: Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido e França.

O último, o Start II, expira em fevereiro do ano que vem. As negociações para a sua renovação emperraram em 2019, quando Trump impôs como condição a participação da China nas negociações de redução do armamento nuclear – imposição rejeitada pelos chineses que, oficialmente, detêm um arsenal 18 vezes menor, ainda que os relatórios sobre os estoques disponíveis não sejam lá muito confiáveis, como alerta o próprio Sipri.

À margem dos tratados, a corrida nuclear agora ganha novo fôlego, com a modernização de instalações das unidades de produção, ogivas e sistemas embarcados, seja por terra, mar ou ar, particularmente dos três grandes.

Há uma versão corrente que considera que o próprio poder de fogo acumulado funcione como um fator de dissuasão para um confronto e resulte em um equilíbrio de forças. Mas ainda que no nosso imaginário um conflito nuclear de grandes proporções hoje seja uma possibilidade remota, devemos ter em mente o equilíbrio reinante nas cabeças de personagens como trumps, putins, jongs, jinpings e outros coadjuvantes.

E como alertou a revista The Economist, em matéria de capa de janeiro de 2018 (The Next War), o cenário é outro e “um confronto devastador entre potências que antes era inimaginável, agora não é mais” — ainda que se coloque na balança uma pandemia em curso.  

“Mudanças poderosas e de longo prazo na geopolítica e a proliferação de novas tecnologias corroem o domínio militar americano”, aponta a revista. “Com isso um conflito em escala e intensidade não vistas desde a II Guerra Mundial é mais uma vez plausível.”

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