A morte de Aritana e o cerco aos povos indígenas

Morreu Aritana. Aritana Yawalapiti, de 71 anos, é mais uma vítima da Covid 19 e do descaso do Estado brasileiro. Uma das lideranças indígenas mais influentes na luta pela demarcação das terras dos povos tradicionais e na preservação ambiental. Com Aritana vai-se boa parte da história, da memória e da cultura do povo Yawalapati, do Alto Xingu.

Aritana presidia o Instituto de Pesquisa Etno Ambiental do Xingu (Ipeax). Tornou-se cacique aos 19 anos. Para assumir a missão, “passou cinco anos em reclusão, recebendo ensinamentos e orientações que o preparariam para essa nova etapa de vida, de liderança e proteção de seu povo”, como registrou o Instituto Raoni.

Na infância, conviveu com Cláudio e Orlando Villas Boas. Foram os dois irmãos sertanistas, em companhia de seu tio, o cacique Raoni, e seu pai, Paru Yawalapiti, que fundaram, em 1961, a Reserva Parque Indígena – uma área de 26 mil km² destinada a uma população de 7 mil indígenas originários de 16 etnias.

Campeão de hula-huka, modalidade esportiva do Xingu, seu nome chegou às telas de TV no final dos anos 70 – como protagonista de folhetim de Ivani Ribeiro na antiga TV Tupi, de São Paulo, vivido na pele de Carlos Alberto Riccelli. E atravessou fronteiras, reconhecido como legítimo defensor dos direitos de sua gente. Nos últimos tempos, prosseguia no trabalho de impedir a invasão do homem branco e tentava buscar recursos para construir um hospital de campanha no Alto Xingu, por meio de arrecadação on line, como relata Watatakalu Yawalapiti.

Coordenadora do Movimento Mulheres do Xingu na Associação Terra Indígena do Xingu, filha do falecido cacique Pirakumã e sobrinha de Aritana, Watatakalu resumiu o significado da morte do tio. “…é a perda de 98% da nossa língua. Significa para a gente muitos desmontes. Se a gente não ficar firme, se os jovens não aprenderem o que ele ensinou, a perda e meu tio significa a perda do Xingu inteiro.”

Desde o começo da pandemia, Aritana já havia perdido três parentes –um irmão, um primo e uma sobrinha –, todos contaminados pelo coronavírus. E este é apenas um sinal de como a doença se espalha de forma acelerada e dramática entre as comunidades indígenas. Até a morte de Aritana na quarta (5), 148 etnias já haviam sido atingidas pela Covid 19, somando mais de 22 mil pessoas infectadas e pelo menos 624 mortos.

A situação de descalabro levou o plenário do STF a referendar decisão cautelar concedida por Luís Roberto Barroso de para que o governo federal adore com urgência media efetivas de controle da doença nas comunidades indígenas.

Basicamente cabe ao governo do capitão Messias praticar nada mais o que se poderia esperar uma instância governamental que se preze, além de cumprir a lei:

– Garantir acesso ao sistema de saúde para indígenas além de áreas homologadas

– Definir plano de contenção e a retirada de invasores

– Gerenciar o combate à doença por meio de alas de situação com a inclusão dos indígenas.

Até aqui a iniciativa tomada pelo negacionista Bolsonaro diante da ameaça aos povos tradicionais territórios indígenas foi vetar 16 dispositivos da lei de criação do Plano Emergencial para o Enfrentamento à Covid 19 destinada àquela gente. Na prática, negou leitos hospitalares e insumos médicos, material de higiene, boletins informativos e água potável.

Como não entender a iniciativa (ou a falta de) governamental adotada até aqui para os indígenas e demais vulneráveis e o que está ocorrendo na Amazônia, com o aval da retórica oficial senão como uma manobra de cerco, só para se aproximar da linguagem dos fardados?

 O médico sanitarista Gonçalo Vecina Neto, em entrevista ao Uol, nesta sexta (7) ignora considerações históricas ou linguísticas e vai na lata: “Tem gente se colocando contra o termo genocídio, mas é real. Estamos promovendo um genocídio com os índios. Está acontecendo no Centro-Oeste”, diz Vecina, que aponta para notícias falsas, negação de isolamento e propaganda de panaceias para cura como combustíveis para a mortandade que ororre no país. “Temos que buscar responsabilização desses agentes públicos. Não tínhamos que ter 100 mil mortes.”

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