A imunização que podemos alcançar. Por incompetência e má-fé.

Tanto o Estadão, no sábado, como a Folha, no domingo, deram destaque gráfico às suas primeiras páginas para marcar o luto pela perda de 100 mil vidas para a Covid-19. Em fundo branco quase que de cima a baixo da página, O Estadão põe a questão na mesa diante do descontrole da doença: como evitar uma tragédia ainda maior?

A Folha crava 100543 vítimas com um adendo que aflige toda a sociedade brasileira: “sem enxergar fim da pandemia.” E ambos, em editorial, destacam a irresponsabilidade do poder público no combate à pandemia, sob o comando do negacionista que habita o Palácio do Planalto.

“O maior responsável pela tragédia se chama Jair Bolsonaro”, apontou a Folha. “Construiu-se essa tragédia porque Jair Bolsonaro se mostrou preocupado exclusivamente com seus interesses particulares”, avaliou o Estadão, considerando que “os graves desdobramentos da pandemia no Brasil são frutos de uma metódica construção por ações e omissões”. E de diversas frentes.

Quando será o fim disso? É a pergunta corrente, depois de quase cinco meses de isolamento capenga, sem que se tenha a expectativa de algum resquício de normalidade com segurança de volta ao cotidiano.

Pelas projeções, já que não há testagem suficiente e o ocupante do Ministério da Saúde, o provisório definitivo general Pazuello, não acha a medida relevante o suficiente, somos uma país de cerca de 20 milhões de infectados. E sem qualquer plano de ação ou diretrizes coordenadas entre as várias instâncias do poder público, só resta contar com as vacinas, em fase de testes e previstas para um futuro distante o suficiente para ceifar ainda milhares de vidas.

Quantos mais ainda deverão morrer em razão dessa insanidade instalada, uma vez que a disseminação da doença parece traçar seu caminho natural até que se obtenha uma imunização massiva? O biólogo Fernando Reinach trata de responder à questão a partir de uma premissa fatalista. Ainda que seja “moralmente indesejável”, Reinach afirma que estamos sendo conduzidos para o que ele chama de Imunidade de Rebanho por Incompetência (Irpi). “Essa é a nossa realidade. E nela atingir a imunidade de rebanho é destino, não escolha. É o preço de viver numa sociedade pobre, sem liderança e desorganizada”.

Com base nessa perspectiva sombria, Reinach tem se debruçado sobre a questão para equacionar a quanto ainda estamos da redenção, pelo menos na cidade de São Paulo, a megalópole de 12 milhões de habitantes e que tem contabilizado 10 mil vítimas, ou 1/10 do total.

Assim, apoiado em modelos matemáticos, cálculos, projeções alguma dose de palpites e mesmo chutes, o biólogo acredita que “provavelmente já estamos com 35% da população total ou parcialmente resistente”, quando a possibilidade de se atingir a tal IRPI, segundo ele, quando a fração da população que possuir algum grau de imunidade chegar a um patamar entre 40% a 55%.”  Percentuais que na verdade podem ocultar a dura realidade de dobrar o número de vítimas fatais entre os paulistanos.

Enquanto isso, no Planalto, o capitão Messias trata de obter a sua própria imunidade, afastando o fantasma pra bem longe. Ainda na quinta-feira (6) Bolsonaro, em sua transmissão ao vivo semanal, ao lado de Pazuello, falou como um líder digno de sua própria estatura. “A gente lamenta todas as mortes. Mas vamos tocar a vida e buscar uma maneira de se safar desse problema.”

Pazuello

Já nesta segunda (10), o provisório definitivo Pazuello voltou a campo, numa de suas aparições bissextas com a imprensa, para comentar os números da tragédia e disse que medidas de distanciamento social são de responsabilidade de Estados e municípios e que a pasta as apoia”. (Reversão da retórica? Conta com o aval do chefe?)

Mas acentuou que para “parar o sangramento” só com diagnóstico precoce e tratamento imediato (não falou em cloroquina). “Não está correto ficar em casa doente, com sintomas, até passar mal com falta de ar. Isso não funciona, não funcionou e deu no que deu nós há dois meses já mudamos esse protocolo”.

Deu no que deu? Essa teve como alvo Henriqueta Mandetta, seu predecessor no Ministério da Saúde. Não por acaso Mandetta surge no horizonte como presidenciável para 2022. E claro já caiu no radar do Planalto. Melhor não comentar. Vamos em frente.

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