Um auxílio providencial na conta do capitão

Os desdobramentos acerca dos resultados da Pesquisa Datafolha, divulgada na sexta (14), que conferiu a Jair Bolsonaro elevação em seus índices de aprovação, deverão ser avaliados ao longo do tempo. Mas é previsível, com pouca margem de erro, retrocesso em áreas sensíveis, como saúde, cultura e meio ambiente, a partir do entendimento negacionista do capitão de que está no caminho certo.

Mas os números da pesquisa apontam também em outras direções e escancaram aspectos que estiveram camuflados em 20 anos de mandato. O mais relevante é o terremoto causada na seara econômica, em tese a âncora desse governo, ao menos aos olhos do mercado.

A história começa na antevéspera da pesquisa vir a público, quando Paulo Guedes, o senhor da Economia, foi para frente das câmeras admitir uma debandada em curso. Mais dois secretários haviam pedido o boné do Ministério Economia – a nona baixa desde que Joaquim Levi, ex-presidente do BNDES, cujas cabeça havia rolado a pedido do capitão.

A aparição de Guedes, ao lado de Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre, serviu como sinalizador de alguém que já se sentia à deriva em mar que não está pra peixe faz tempo. Teve ainda o intuito de implodir a ofensiva da ala desenvolvimentista do Planalto – general Walter Braga Neto, da Casa Civil, à frente – com um alerta/pressão: conselheiros do presidente estão levando o presidente para uma zona sombria, de impeachment ao propor furar o teto de gastos. A artilharia no dia seguinte contra o até senhor do Posto Ipiranga foi pesada: “idiota” e “primário”, segundo a coluna de Mônica Bérgamo.

O pano de fundo da barafunda toda é a reeleição do capitão. Sabe-se que a pandemia, que assola o país e o planeta, deu sobrevida a Bolsonaro. Nesse meio tempo, o capitão teve tempo de contratar o Centrão para biombo contra qualquer tentativa de ser catapultado da presidência. É corrente também e só não sabe quem não quis saber – até as emas do Planalto, a quem ele ofereceu cloroquina, Bolsonaro que o capitão teve um pé sequer no liberalismo, em sentido algum. Sempre incorporou o papel de biruta aeronáutica, voltado para onde sopra o vento. Na falta de condições de implementar seu projeto piloto de autogolpe, (como já tinha adiantado o caçula Dudu, o 03 (“não é se, é quando”) passou a surfar numa nova onda populista, turbinado pelo auxilio emergencial de 600 reais, que a princípio ele resistiu o quanto pôde.

Passou então a pressentir novos ventos e que uma reviravolta em seu ibope estava em curso com o aditivo que havia caído em seu colo, e de resto acabou confirmada pelo ganho de popularidade detectada pelo Datafolha.

Essa é a real. Os episódios que vieram a seguir só atestam o caráter e natureza do governo do capitão Messias

Os dois secretários que saíram por último, Salim Mattar, da Desestatização, e Paulo Uebel, da Desburocratização, reclamaram de que suas funções estavam esvaziadas. Não perceberam que o capitão já havia sentado sobre seus projetos fazia tempo. Assim como os donos da grana, que financiaram a aventura que estamos vivendo.

A crença de Mattar, que deveria entregar um saldo de 1 trilhão de reais com suas privatizações, nas contas de seu patrono Paulo Guedes, saiu atirando. Em entrevista ao Jornal da Cultura, disse que de o plano de privatização só deu certo no governo de FHC porque o ex-presidente “comprou o Congresso”.

O médico sanitarista Gonzalo Vecina, que estava na bancada do jornal, e que havia presidido a Anvisa naquele período, rebateu: “Deu certo no governo FHC porque eles tinham o Serjão” (Sergio Motta, ex-ministro).

A economista Elena Landau, ouvida na mesma edição do JC, descascou, sugerindo que faltou competência. “Salim Mattar deixou a Secretaria de Desestatização com um saldo positivo: uma estatal a mais”. Descobriu que os tempos do setor público são diferentes do privado, que o establishment resiste à venda de estatais e que Bolsonaro não gosta de privatização. E que os Beatles são realmente os reis do iê iê iê”, arrematou em sua coluna no Estadão. Ao que parece não foi coisa só do perspicaz Mattar.

O capitão Messias por sua vez se apressou em prestigiar Guedes, posando de estadista. Mas já no dia seguinte, em sua live costumeira, entregou o serviço: “Ideia de furar o teto existe, o pessoal debate, qual o problema?

Desce o pano. Apenas flashs de uma peça burlesca bananeira, de inspiração populista de extrema-direita made in Latin America. A questão que sobra é a seguinte: vencida última rodada do auxílio, que providencialmente caiu no colo do capitão, qual o caminho a seguir? Mantêm-se o teto de gastos?

E quanto ao teto de zinco dos desassistidos e mais vulneráveis?  Alguma fórmula mágica saindo do forno de Guedes? Ou ele vai fazer seu facão habitual cantar de cima a baixo?   

Deixe uma resposta