O estupro que expõe as nossas mazelas

O caso da garota capixaba de 10 anos que sofreu estupro continuado do tio – e que obteve na justiça o direito de se submeter a um aborto –expõe as nossas mazelas sociais, existenciais e espirituais de maneira chocante.

O caso em si dispensa comentários pela monstruosidade inerente, ainda que odiosamente constitua fato crônico de nosso dia a dia. Imaginar que a decisão tenha atraído para a porta do hospital uma horda de fanáticos religiosos e fascistas, que aos gritos de “assassina” tentavam impedir que a criança se submetesse à intervenção, é algo que extrapola a razão ou qualquer parâmetro de civilidade.

O hospital para onde a garota foi levada em Vitória, ES, se negou a realizar o procedimento. Por isso ela teve que ser encaminhada para um centro especializado na assistência à saúde da mulher, em Recife. Toda a operação deveria ser feita em sigilo. Mas uma representante das milícias virtuais bolsonaristas tratou de espalhar a notícia pelas redes sociais a fim de mobilizar a turba, que se encarregou do linchamento moral.

Certamente se trata de uma manifestação de um país doente. Uma mistura que inclui ignorância, deformação religiosa, ódio exacerbado e oportunismo político, traços bem característicos dos novos tempos. Ignorância, sobretudo, porque despreza os riscos de uma gravidez infantil.

Não dá para dizer que isto seja exclusividade ou produto resultante da atmosfera atual que tem nos sufocado cotidianamente. Há dez anos o obstetra que realizou a cirurgia foi da mesma forma atacado por religiosos que queriam impedir o aborto de uma garota de 9 anos, estuprada pelo padrasto e que daria à luz gêmeos.

Mas certamente dá pra considerar que a ideologia propagada pelo grupo que está instalado no poder tem contribuído para revolver um substrato contaminado e que tende a se disseminar pela sociedade. Ainda que se consiga reverter o quadro politicamente, os reflexos negativos da passagem desse grupo já terão deixado marcas indeléveis na vida política e social do país.

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