O capitão em seu novo normal e a linda cloroquina

O novo normal do capitão voltou. Foi no fim de semana em mais uma desses salseiros que ele costuma armar pelo Planalto. “Vontade de encher a sua boca de porrada”, respondeu ao jornalista d´O Globo, que tinha lhe perguntado sobre os 89 mil reais depositados por Fabrício Queiróz na conta da primeira-dama.  

Ainda que vago e conceitualmente duvidoso, o novo normal no caso diz algo mais sobre a ideia de normalidade. E se ainda temos alguma certeza nessa pandemia é de que certas coisas seguirão previsíveis e para elas não haverá novo normal algum. O episódio de domingo é um deles.

Acuado diante de questões para as quais não tem resposta ou argumento, Bolsonaro age como sabe, instintivamente. Estivesse numa situação mais propícia, teria partido para satisfazer seus instintos mais primitivos – como classifica seu mais novo aliado de última hora, Roberto Jefferson. E esses já os conhecemos bem, não é capitão?

Claro que recolhimento em nome de alguma razão e civilidade imposto pela prisão de Queiróz tinha prazo de validade. Reverter o quadro está fora de cogitação, uma vez que o personagem não tem a dimensão de um ataque dessa natureza. E se alimenta disso. Assim, o quadro de anormalidade vai se estendendo dentro dos contornos da previsibilidade.

Nesta segunda (24) Bolsonaro repetiu a dose. Em evento no Palácio do Planalto, em ambiente cercado de formalidade habitual reservado a esse tipo de acontecimento – e aparente normalidade institucional –, o capitão emendou, em reação às críticas que recebeu por minimizar a gravidade da doença: “Aquela história de atleta, que o pessoal vai para o deboche, mas quando pega num “bundão” de vocês [da imprensa] contrair o novo coronavírus, a chance de sobreviver é “bem menor”.

O tema do evento “Brasil vencendo a Covid-19” já soava como peça ficcional, produzido supostamente para apresentar as ações governamentais no enfrentamento da doença. Foi além.

Um grupo de médicos que o cercavam não só recomendou o uso da cloroquina como defendeu a sua inclusão no Programa Farmácia Popular, como forma de facilitar o acesso à medicação dos mais vulneráveis, conforme noticiou a Folha. Houve até quem a chamasse de “nossa linda e velha cloroquina, defendendo a massificação do fármaco contra todas as evidências científicas e orientações para que seja coibido o seu uso indiscriminado.

É gritante o grau de vassalagem a que podem chegar profissionais que por dever e ética deveriam se pautar por preceitos científicos. Em vez, disso movem-se por orientação ideológica ou interesses próprios. Isso beira a insanidade. Em um ambiente de equilíbrio e normalidade, não só do ponto de vista institucional, esses profissionais seriam confrontados por órgão representativo da classe. E o patrocinador do encontro, responsabilizado por vários delitos.

É sintomático que isso se dê sob o comando de um ser que tem manifestado traços de uma personalidade francamente psicopata. Talvez sejam os sinais de um novo normal negacionista que vai se disseminando de forma lenta e gradual.

A submissão frente a isso é ameaça aos padrões mínimos de civilidade e coexistência social. É normal?      

A propósito, presidente: por que sua esposa Michelle recebeu 89 mil reais de Fabrício Queiróz? 

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