Astros da NBA na luta contra o racismo

Jogadores da NBA, a Liga Nacional de Basquete dos Estados Unidos, decidiram boicotar os jogos de meio de semana em protesto pela morte de mais um cidadão negro americano por um policial branco. Jacob Blake de 29 anos foi alvejado sete vezes pelas costas ao tentar entrar em seu carro, diante de sua família.

O episódio acontece três meses depois do chocante assassinato de George Floyd por forças policiais americanas e que desencadeou uma série de protestos pelo mundo. Blake continua internado com paralisação da cintura para baixo.

A ação antirracista liderada por astros negros do basquete americano é um marco histórico e deverá (espera-se) reverberar além do universo esportivo. Os dirigentes da associação tentaram em comunicado oficial tentou cravar que as partidas não disputadas seriam adiadas. “Adiamento não, boicote” à temporada, reagiu Le Bron James, estrela do Los Angeles Lakers. A liga feminina de basquete e a masculina de beisebol também aderiram ao boicote. Barak Obama deu apoio ao movimento.

O atentado torpe e covarde, capturado mais uma vez por celular, acontece em meio à escalada de confrontos raciais, alimentados por sinais emitidos pela Casa Branca.

Há choques diários desde a tentativa de execução nas ruas de Kenosha, no estado de Wisconsin, e milícias de jovens supremacistas brancos atacam manifestantes com armamento pesado. Um deles, Kyle Rittenhouse, de 17 anos, foi preso, acusado de matar duas pessoas com fuzil AR 15.

Em campanha, Trump anunciou o envio de tropas federais à cidade. “Não vamos tolerar saques, incêndios criminosos, violência e ilegalidade nas ruas americanas”, mandou o mandatário americano pelo Twitter.

O próprio Le Bron James se encarregou de responder a ele pela mesma rede. “Foda-se esse cara. Nós queremos mudanças. Estou cansado disso.”

As ameaças aos negros brasileiros

No Brasil ficamos sabendo pelo Atlas da Violência 2020, divulgado nesta quinta (27), dos números referentes à ameaça crônica e estrutural a que estão sujeitas pessoas da raça negra. Produzido pela Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e pelo FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o estudo registra que homens negros correm um risco 74% maior de ser vítima de homicídio em relação aos demais. Para as mulheres negras o risco é 64% maior.

Em pouco mais de uma década, entre os anos de 2008 e 2018, os homicídios de negros no país cresceram 11,5%, enquanto o número de não negros caiu 12,9%. Entre as mulheres negras a taxa também aumentou em quase igual medida, e caiu na mesma proporção entre as não negras.

No período foram assassinadas 628 mil pessoas foram assassinadas no país. Desse total quase 92% eram homens. A Samira Bueno, coordenadora do Atlas e pesquisadora do FBSP resume o cenário detectado: “É como se a gente estivesse falando de países e territórios diferentes, tamanha a disparidade entre negros e não negros.”

O estudo também aponta associação da vulnerabilização dos negros e sua condição social e o aparato de segurança e as políticas públicas voltados para a repressão a esses grupos. Raça, gênero e classe formam a base de confluência com as taxas de letalidade, ainda que não necessariamente seja distinguida a autoria dos crimes.

Lá como aqui, o racismo e a violência contra os negros têm causas e origens históricas. Mas a retórica e o relaxamento no controle de armas como política de estado têm papel decisivo nos índices de mortes entre esses segmentos e sua correlação é explicitada na pesquisa.

71% dos assassinatos no Brasil foram cometidos com arma de fogo. Para efeito de comparação: entre 1980 e 2003, período em que não havia o estatuto do desarmamento, o crescimento anual de mortes por arma de fogo era de 5,9%. A partir de então, quando a lei passou a vigorar e até 2018, essa média caiu para menos de 1%.

“Temos estudos científicos constatando causalidade, observa Daniel Cerqueira, pesquisador do Ipea e também coordenador do Atlas. “Lamentavelmente, estamos enterrando o estatuto”.

E com ele milhares de vidas a sangue frio.

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