Zorra total

Abriu-se um buraco na área do ambiental do tamanho dos clarões detectados na Amazônia por conta da omissão deliberada do governo Bolsonaro. Na sexta-feira (29) o antiministro Ricardo Salles havia anunciado pela tarde a suspensão do que resta das operações de combate ao desmatamento e às queimadas na Amazônia Legal e no Pantanal.

A razão para isso seria o corte, determinado pelo ministério da Economia, de pouco mais de 60 milhões de reais, dos quais 40 milhões seriam destinados ao Instituto Chico Mendes e o restante ao Ibama. O valor é uma fração de milésimos da previsão do teto de gastos para o próximo ano, algo próximo de 1,5 trilhão de reais.

Em seguida, o anúncio seria desmentido pelo vice-presidente Hamilton Mourão. Segundo o general, que comanda o Conselho da Amazônia, ao qual cabe a tarefa de traçar as diretrizes políticas para a floresta, Salles “se precipitou” ao se confundir diante de uma planilha da Secretaria de Orçamento Federal. E caberia a ele refletir sobre o gesto tresloucado porque não haverá interrupção alguma nos trabalhos.

A razão para a “precipitação” seria, segundo o próprio Mourão, o fato de que o “governo está buscando recursos para poder pagar o auxílio emergencial. Então está tirando recursos de todos os ministérios. Cada ministério oferece aquilo que pode oferecer, né?”.

A oferta no caso teria o sentido de rifar os recursos destinados à seara do próprio general. Ao final do dia, Salles reapareceu para a tréplica: “Está documentado no sistema, não tem discussão”, reafirmou Salles, insinuando que diante da repercussão negativa de sua atitude os recursos acabaram liberados do facão proposto ela Secretaria de Governo.

Sabe-se que Salles anda escanteado e talvez tenha sido uma tentativa de reação aos fardados do Planalto em especial Mourão, que acabou abocanhando parte considerável de seus domínios – mas certamente não terá sido sem o aval de Bolsonaro, seu chefe.

Seja como for, a pendenga só reflete a zorra que é o governo do capitão. E marcar território parece consequência direta da falta de recursos associada à falta de disposição para o enfrentamento da questão ambiental. Incrível que aconteça no momento em que o mundo financeiro global e a comunidade europeia pressionam por medidas de proteção.

O bate-cabeça de sexta passada só amplia os efeitos desastrosos da retórica negacionista do governo. O próprio general Mourão na semana passada tratou de “agulhas no palheiro”, ao se referir aos 25 mil focos de incêndio detectados na Amazônia Legal, em sua extensão de mais de 5 milhões de km².  

Vê-se por aí o entendimento do general a respeito do que acontece na Amazônia. Deveria prestar atenção na crescente devastação na Amazônia e nos demais biomas, e no desmonte que seu governo tem promovido no aparato de e fiscalização e preservação ambiental, e que ele tenta compensar com um destacamento de brigadistas.

E especialmente se deter nos índices que registram uma perda de florestas equivalentes aos São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná e Espírito Santo, nas últimas três décadas, conforme o MapBiomas.

Para Mourão números e índices não parecem impressionar, dado que a derrubada da floresta não guarda relação com a perda de um ativo. Assenta-se sobre a visão passadista e estreita de soberania própria da escola militar, ao passo que o capitão dá impulso a seus devaneios de desenvolvimento extrativista.

E ao mesmo tempo que minimiza a situação, tachando de agulhas no palheiro, endossa a compra de um sistema de microssatélite para aperfeiçoar o monitoramento na região amazônica. Um investimento de 145 milhões de reais para substituir um sistema em uma área na qual o Brasil está bem equipado, mas certamente estará de acordo com o figurino dos fardados – e de quebra terá sentido de medida para consumo externo.

Nessa segunda (31), o projeto do governo para o orçamento de 2021 prevê um corte de 184 milhões e meio de reais na verba do Meio Ambiente.

Mas com a garantia de soberania.

Deixe uma resposta