O Pantanal arde em chamas e o Planalto rola. De rir.

Há pelo menos dois meses o Pantanal é consumido pelas queimadas. Tão previsível quanto incontrolável, o fogo avança inexoravelmente pela paisagem, carbonizando toda a vida, fauna e flora. Diariamente somos atingidos pelas imagens chocantes reveladas pelas da TV e já não conseguimos fixá-las, tamanha angústia e pesar. E passivamente vemos esvair-se uma das mais belas reservas naturais de todo o planeta.

Foto André Zumak

Até esta semana cerca de 2,2 milhões de hectares do Pantanal já haviam sido consumidos – o 15% de sua área total. Ou se preferirem, o equivalente as áreas somadas das cidades de São Paulo e Rio e multiplicadas por 10, conforme dados do Ibama. E as chamas continuam a se expandir descontroladamente sobre o cerrado e a Amazônia, ainda disparado o bioma mais afetado, com a multiplicação desenfreada de focos registrados.

Os relatos de gente que está na linha de frente apontam para um cenário incontrolável de devastação, morte e sofrimento das espécies que lá habitam. Equipes compostas de veterinários, bombeiros, biólogos, guias e brigadistas voluntários lutam desesperadamente para socorrer os animais, enquanto esperam pela resiliência da natureza.

É costume dos proprietários de terra da região colocar fogo na pastagem a fim de renovar o solo. A técnica barata e rudimentar, porém é condenada por ser realizada sem critério ou fundamento e comprometer o solo no médio prazo. No caso presente, a situação se agrava com a seca extrema, que se a acentua a cada ano em função dos efeitos provocados pelo aquecimento global.

O fator determinante para essa situação, que se configura como uma tragédia de impactos múltiplos e incalculáveis, passa longe disso. Trata-se de presumíveis ações criminosas visando a expansão de corredores agrícolas, executadas com base na retórica oficial, de inclinação negacionista e antiambiental – evidências levaram a Polícia Federal a empreender operações pelo menos em Cuiabá e Campo Grande e interior do bioma pantaneiro.

“A política ambiental sempre foi deixada de lado por falta de recursos, coisas nesse sentido”, observa o presidente  da Associação dos Servidores da Carreira de Especialistas em Meio Ambiente, Alexandre Bahia Gontijo. “Mas o que a gente tem visto, não é apenas um descaso, é um ataque ao trabalho dos órgãos ambientais em efetivar a legislação.”

Para atiçar ainda mais o fogo, o governo do capitão passou a tesoura nos orçamentos do Ibama e do ICMBio. Não bastasse isso, dois episódios desta semana chamaram a atenção para o verdadeiro caráter e competência do governo Bolsonaro na questão ambiental. No primeiro deles, o vice Hamilton Mourão e o antiministro do MMA Ricardo Salles, repostaram um vídeo produzido pecuaristas paraenses, com o intuito de negar a extensão das queimadas na Amazônia.

O detalhe é que a peça, com passagens exuberantes de uma suposta Amazônia, traz imagens do mico leão-dourado, nativo exclusivamente da Mata Atlântica. Nem que o mico tivesse pulado um galho transamazônico.

Confrontado com a informação, Mourão passou por cima da gafe e argumentou: “Eles fazem o trabalho de propaganda deles. Nós temos que fazer a contrapropaganda. Isso faz parte do negócio.” Para os militares do governo do capitão, a questão da devastação da Amazônia e demais biomas está relacionada a uma guerra de propaganda.

O segundo, um escárnio. Uma garotinha youtuber, convidada para participar de uma reunião ministerial no Planalto comandada pelo presidente, pergunta aos presentes: “Tá pegando fogo no Pantanal?”. Gargalhada geral.

Crianças em geral provocam graça por sua espontaneidade. Mas ainda que a manifestação seja resultado da liberação de uma dose extra de endorfina e conseqüente alívio geral, em condições normais de pressão e temperatura, a atitude soaria como um traço de degeneração qualquer.

Mas isso é só uma impressão. A questão é: até quando?

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