Uma renda chamada Brasil e o pavão de Bolsonaro

Nesta quarta (16), o bate-cabeça ainda comia solto no Planalto. Bolsonaro dava sinal verde ao senador Marcio Bittar (MDB-AC), relator do Projeto de Lei do Orçamento de 2021, para criar uma nova versão de um programa social, em substituição ao Renda Brasil, que ele próprio havia se encarregado de enterrar na véspera.

O meia volta volver veio depois que o secretário especial de Fazenda do Ministério da Economia, Waldery Rodrigues, havia defendido a idéia infame de congelar os valores das aposentadorias e demais benefícios da Previdência por dois anos a fim de garantir os recursos para o projeto bolsonarista.

Diante da repercussão negativa, o capitão em mais um gesto de seu repertório caricato ameaçou com “cartão vermelho” a quem cometesse o disparate de lhe apresentar tal proposta. “Já disse que jamais vou tirar dinheiro dos pobres para dar para os paupérrimos”, disse em alto e bom som.

O roteiro é manjado, mas podiam ter ensaiado já que o que mata é o improviso para quem não tem capacidade para tal coisa. E o que mais se vê na temporada do Planalto é a improvisação. Planejamento é algo que foi abolido.

A própria Previdência é exemplo disso. Seis meses de pandemia, e as agências não conseguem restabelecer o atendimento por falta de condições básicas.

O que resta é esse deserto de idéias que caracteriza a gestão de um governo militarizado e apegado ao espectro de 64. Some-se a isso evidentemente o fato de que o capitão nunca foi um liberal, em aspecto algum. Trata-se de um ser inclinado à intervenção, preferencialmente na base da força. E Guedes, um incauto, de uma escola passadista, para quem transferência de renda é mera força de expressão. Renda que é bom é imexível.

A proposta nada mais é do que uma reedição reduzida do que já havia sido apresentado anteriormente, com cortes em programas como o salário-família, abono salarial, seguro-defeso e farmácia popular. E Waldery falou em nome da equipe econômica. Mas Paulo Guedes se fez de morto e rebateu dizendo que o cartão não era para ele. Ao contrário, aproveitou para reprogramar nova investida por um imposto na linha da CPMF no bojo de uma reforma tributária.

E pelo que se sabe uma tacada de longa alcance – um drive, para simpatizantes do golfe –, que inclui ampliação das faixas de isenção do imposto de renda, desoneração da folha para quem 1 salário mínimo, redução de IPI da linha branca e, claro, benefícios às igrejas, cujas dívidas somam cerca de 1 bilhão de reais.

Com ou sem recheio, Rodrigo Maia cansou de dizer que CPMF não passa. Mas atende mais uma vez aos propósitos do capitão. Ainda nesta quarta Bolsonaro reuniu a bancada evangélica para um almoço e acenou com perdão para as dívidas paroquiais, agora com arcabouço legal – algo que Bolsonaro havia vetado, mas com indicação para sua derrubada no Congresso, nada mais bizarro em qualquer contexto republicano.

E assim o que foi parido como um jabuti corre o risco de se metamorfosear em um pavão, que não tem nada de misterioso, mas é dotado de uma plumagem absolutamente vistosa para 2022.

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