Iracema: uma transa amazônica, a projeção de uma floresta devastada

O filme Iracema: Uma Transa Amazônica é um desses casos de transcendência de sua própria dimensão tempo-espaço. Atravessou décadas resguardando a sua força e integridade. Não por acaso é considerado um dos grandes ícones da filmografia brasileira.  

Dirigido por Jorge Bodanski e Orlando Senna, Iracema foi realizado em 1974, em plena ditadura militar, quando a ordem do dia era a promoção de incentivos oficiais destinados à exploração da floresta, sob a regência de uma política ufanista e o lema fundamental entre os fardados: “integrar para não entregar”.

O resultado não podia ser mais ilustrativo. Revê-lo é ser transportado sem escala para o cenário de devastação ambiental e social acelerada que assistimos impassíveis nos dias de hoje: a motosserra dizimando o que encontra pela frente, o movimento dos caminhões abarrotados de toras pelos caminhos abertos na mata, a grilagem da terra, o trabalho escravo, a prostituição à beira da estada arrastando crianças, o fogo e a fumaça misturada à poeira que cobre toda a paisagem.

Financiado com minguados recursos pela televisão alemã, Iracema ficou confinado durante seis anos a cine clubes e projeções privadas em casas de amigos, por desígnios da censura vigente à época. Liberado em 1980, seguiu carreira premiada aqui e no Exterior, a partir do Festival de Brasília daquele ano, no qual conquistou seis prêmios.

O filme não só foi realizado no auge do período de chumbo do regime, mas em área de segurança nacional, coalhada de barreiras erguidas pelo Exército, nas quais a equipe era frequentemente parada e revistada.   

Em Era Uma Vez Iracema, documentário dirigido pelo próprio Bodanski, que debate o longa-metragem trinta anos depois, o diretor relembra o clima pesado das filmagens no meio da selva, transcorridas a bordo de uma Kombi, que acomodava toda a equipe de meia dúzia de pessoas.

“Nós éramos sempre suspeitos, as pessoas olhavam a gente com suspeição. A região, nos arredores da rodovia PA 70, perto de Marabá, era onde tinha acabado de acontecer a guerrilha do Araguaia. O clima era sempre muito tenso… Será que essas latas de filme vão conseguir sair daqui? Será esse filme vai acontecer”, pensava.

Sob esse clima tenso se desenrola o filme, um documentário que incorpora elementos da ficção, que dela se nutre e cujas fronteiras atravessa. Um “docudrama”, em síntese do próprio Bodanski. Como fio condutor a estabelecer uma interface entre um campo e outro, Paulo César Pereio, que encarna o personagem-símbolo Tião Brasil Grande, o caminhoneiro que transporta a madeira ilegal de um ponto a outro. E em cuja boleia viaja Iracema (vivida pela menina Edna de Cássia, então com 14 anos), uma indiazinha, que aporta na cidade e cai na prostituição na falta de alternativa de vida.

Uma das cenas mais emblemáticas do filme é o plano-sequência de cerca de 1 minuto, que registra justamente o incêndio consumindo a floresta, algo imageticamente inédito na época. “As cenas de queimadas eram tão comuns que a gente nem se dava conta de que aquilo tudo estava pegando fogo”, lembra Bodanski. “Era tão banal que quase a gente não filma. Então sentei na Kombi de porta aberta e deixamos a câmera correr. Virou um plano emblemático porque foi a primeira imagem grande de floresta queimando que correu o mundo. Ninguém tinha ideia da dimensão desse fogaréu.”

É bem provável que ainda hoje ninguém, que não tenha estado lá um dia, tem ideia dessa tragédia que nos chega pela TV cotidianamente. Mas assistimos a cena com a certeza de que aquilo que está na tela é bem real.

Iracema: Uma Transa Amazônica pode ser encontrado em DVD. Obrigatório.

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