Bolsonaro discursa na ONU: farsa e oportunismo

Bolsonaro discursou hoje na abertura da 75ª Assembleia Geral da ONU. Em tempos de pandemia, o pronunciamento teve de ser feito pela via virtual, o que evitou flagrantes de desconforto, ironia ou desprezo entre os presentes, como acontece toda vez que uma figura bizarra como ele ocupa a tribuna da Assembleia.

Como de costume e do alto de altiva boçalidade, o capitão mais uma vez falou para os seus. E em cerca de 14 minutos, apresentou um país imaginário, que em meio à catástrofe planetária provocada pelo coronavírus, ainda ostenta avanços econômicos, sociais e mesmo ambientais.

Assim, sobraram pérolas próprias de seu universo delirante e obcecadamente oportunista, do tipo ““somos líderes em conservação de florestas tropicais”; o agronegócio continua pujante, apesar da crise mundial a produção rural não parou e alimenta 1 bilhão de pessoas”; ou “o Brasil é referência no campo humanitário e dos direitos humanos”.

Da mesma forma, na ficção bolsonarista tem sido modelar o esforço de guerra empregado no combate à pandemia, com a disponibilização de aparato médico-hospitalar, incluindo a assistência a 200 famílias indígenas, e um auxílio emergencial de 1 mil dólares (!) para 65 milhões de pessoas. Algo só visto mesmo aos arredores do Palácio do Planalto.

Sobre o cenário desolador de perda do patrimônio natural, com a disseminação dos focos de incêndio no Pantanal e na Amazônia, e de vidas, que colocam o país entre os recordistas de mortos em termos e absolutos e proporcionais, nada a revelar.

A não ser registrar a responsabilidade de “governadores e prefeitos pelo isolamento social” com a anuência do STF, a imprensa por “politizar o vírus” e mesmo o caboclo e o índio que queimam seus roçados em busca de sobrevivência”. Já os “focos criminosos seriam combatidos com rigor e determinação” por seu governo. A rigor, nada do que disse é surpresa, nada do que já não tenha dito em outras situações.

Nem mesmo a teoria conspiratória de ataque multinacional à Amazônia, de resto lançada pelo general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional, na véspera, em audiência pública junto ao STF.

Foi a deixa para Bolsonaro emendar da tribuna para o mundo. “A Amazônia brasileira é sabidamente riquíssima. Isso explica o apoio de instituições internacionais a essa campanha escorada em interesses escusos que se unem a associações brasileiras, aproveitadoras e impatrióticas, com o objetivo de prejudicar o governo e o próprio Brasil”.

E assim a gente vai levando, embalada pelo tom de farsa e oportunismo, com a subserviência a serviço de interesses corporativos por parte de fardados e apaniguados.    

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