“Meu compromisso é com o desenvolvimento sustentável”

Em discurso previamente gravado, Bolsonaro voltou a discursar na ONU nesta quarta (30), desta vez na Cúpula da Biodiversidade daquela organização. A fala aconteceu no mesmo dia em que nos despedimos de Quino, o cartunista argentino criador de Mafalda, seu personagem-símbolo.

Bolsonaro: movimentos conspiratórios em favor da cobiça internacional. Foto: UOL

Só por intenção lúdica, imagine a reação dessa garotinha, que vivia indignada com as barbaridades cometidas pelos governantes do mundo, diante de mais esse espetáculo televisivo proporcionado pelo capitão.

Charge pronta, aliás, prato cheio pra qualquer cartunista. Se a nossa capacidade de indignação já não é tão elástica, que ao menos a situação proporcione algum humor.

A rigor Bolsonaro não disse nada além do que não fosse uma extensão que já havia dito na abertura daquela Assembleia Geral do dia 22. O que torna a coisa ainda mais pateticamente delirante, porque se nega a rever a falsa verborragia.

O grau de desfaçatez só se amplia em um grau de torpeza que extrapola os domínios da razão. Quando o presidente se dispõe a exaltar uma política ambiental do governo, que inexiste, contraria não só dados, imagens, estatísticas e projeções, como agride a percepção e inteligência do distinto telespectador.

Meu governo mantém firme o compromisso com o desenvolvimento sustentável e com a gestão soberana dos recursos brasileiros”, diz ele

Seria aconselhável que, ao menos para o bem do país, o capitão parasse de brigar com os fatos. Depois, explicar o que ele entende por desenvolvimento sustentável quando projeta um esforço nesse sentido. Para começar, reconhecer alguns princípios ajudariam, como o de que os recursos naturais são finitos.

Depois, entender que a Amazônia é um universo singular, cujos múltiplos fatores, sejam eles climáticos, hidrográficos, fluviais ou pluviais, dependem da integridade e estabilidade da floresta e das espécies que nela coabitam. Trata-se de um conjunto complexo e interdependente. Além disso, intacto, representa uma reserva inestimável de capitais. Não por acaso é a maior reserva de biodiversidade do planeta

Apesar de seu poderio e influência esse universo apresenta um frágil equilíbrio. Explorá-lo de forma sustentável, requer ciência, conhecimento técnico e sensibilidade social. Tudo o que negacionistas como o capitão não têm ou rejeitam.

Para que fardados, particularmente os que lá estiveram em alguma missão e que ainda têm o fetiche desenvolvimentista de domá-lo na base da integração, entendam, de maneira bem didática: é como um jogo de pega-varetas: mexeu uma peça errada ou de mau jeito, o amontado se desfaz e o jogo está perdido.

Não cabe mais a ideia passadista de desenvolvimento baseada na abertura de estradas e construção de vilas do agronegócio. Essa estrada vai dar em ruína ambiental, social e econômica como temos visto.

Da mesma maneira soa como aberração a ideia de soberania atrelada à exploração do subsolo da Amazônia, sob a chancela “made in USA”, como sonha o capitão – ou qualquer outra, pelas mesmas razões apontadas acima.

Por fim, mais do que conveniente seria o capitão parar de levantar suspeitas sobre movimentos conspiratórios em favor “da cobiça internacional”, sobretudo por parte das ONGs, como forma de encobrir sua incompetência para gerir um plano estratégico para Amazônia e demais biomas.

Aliás, se não fosse a atuação de ONGs a situação no Pantanal que já está fora de controle seria ainda mais desesperadora principalmente para a fauna e pequenos proprietários

Esperar que haja reversão e que essa gente que hoje dá as cartas no Planalto seja catequizada é bobagem. A expectativa é que um dia possam responder pelo estrago.

Deixe uma resposta