Um supremacista, sem artifícios

Sérgio Camargo, o presidente da Fundação Cultural Palmares, é um sujeito de opinião. Para ele o líder quilombola Zumbi dos Palmares, patrono da fundação que preside, seria “um filho da puta que escravizava pretos”. Por consequência, o dia 20 de novembro, dedicado à Consciência Negra, em alusão à sua morte, é “uma vergonha” e como tal “precisa ser combatido incansavelmente até que perca a pouca relevância que tem e desapareça do calendário”.

Sérgio Camargo/ Foto: Arquivo pessoal

O movimento negro não passa de uma “escória maldita”, cheia de vagabundos, o racismo teria sido benéfico aos descendentes de negros escravizados, que hoje se beneficia de uma segregação “nutella” e os pretos que contestam são mentes escravizadas pela esquerda, como a ativista pelos direitos civis Angela Davis, que não passa de uma “baranga comunista”.

Com a pandemia, Camargo deu sua contribuição ao debate científico e social, classificando o isolamento de a maior imbecilidade da história da humanidade”. Mais recentemente, investiu contra a vacina chinesa produzida em parceria com o Instituto Butantã, de São Paulo, com recado pelas redes sociais: “Pessoas da minha família não tomarão a vacina chinesa trazida pelo Dória nem sob condução coercitiva até o local de vacinação. Não são os únicos.”

Com esse patrimônio intelectual e sólida formação científico-ideológica, Camargo foi guindado à presidência da Fundação Palmares, vinculado à Secretaria Especial de Cultura. A condução é creditada ao ex-titular da pasta Ricardo Alvim, de gestão meteórica e cujo discurso encontrava inspiração em pronunciamentos do ideólogo nazi, Joseph Gobbels. Foi escalado para cumprir papel similar destinado a Ricardo Salles, no Ministério do Meio Ambiente, conforme delineado pelo capitão Bolsonaro. Ou seja, romper e esvaziar as estruturas de uma instituição criada para a promoção e preservação da cultura negra.

De saída, providenciou uma limpa em seu gabinete, demitindo vários diretores negros e passou a comandar reuniões com um reduzido staff de brancos, chamado internamente de Klu Klux Klan – organização racista americana, surgida depois da guerra civil e dedicada à perseguição e morte aos negros.         

Nesta terça (13), este autoproclamado “negro de direita, contrário ao vitimismo e ao politicamente correto”, empreendeu mais uma jogada midiática. Anunciou a exclusão da lista de personalidades da Fundação, nomes como o da ex-ministra Marina Silva, o professor e ativista Jean Willys, os deputados federais David Miranda e Talíria Petrone, e a cantora Gil. “Posar de vítima e de oprimido rende dividendos eleitorais e, em alguns casos, financeiros”, justificou. A respeito de Marina, um agravante determinante: “Não tem contribuição relevante para a população negra do Brasil. Disputar eleições não é mérito.”

Não foi uma ação isolada. A tarefa de esvaziar a memória da Fundação já havia sido objeto de ação por parte do MPF em junho último, depois que Camargo mandou retirar do site da FCP artigos de lideranças e artistas, como o abolicionista Luís Gama e a escritora Carolina e Jesus, além do próprio Zumbi.

Houve um tempo em que cantores e atores americanos maquiavam-se de negro para suas apresentações. O mais conhecido deles por aqui foi o cantor Al Johnson. Com o tempo, o gesto foi considerado ofensivo para com os afrodescendentes justamente por reavivar simbolismos e alimentar estereótipos.

Camargo não precisa desses artifícios para revelar sua verdadeira face.   

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