Canastrice contagiante

A decisão pegou o general Pazuello já em isolamento, abatido pela Covid. Em troca de mensagens com sua claque virtual, Bolsonaro anunciou o cancelamento do acordo firmado pelo Ministério da Saúde para a compra de 46 milhões de doses da CoronaVac, a vacina contra a Covid desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac Biotech, em parceria com o Instituto Butantan – referência mundial no setor.

“NÃO SERÁ COMPRADA”, assim mesmo, em letras garrafais, vociferou Bolsonaro, aos internautas, entre eles, um adolescente, que pedia ao capitão que não comprasse a vacina, em atenção a seu, sem “interferência da ditadura chinesa”. A outros que se referiram a Pazuello como “traidor”, “Mandetta milico”, e que havia se enganado mais uma vez, Bolsonaro retrucou que “qualquer coisa não comprovada, vira TRAIÇÃO”, eximindo-se da anuência a respeito do anúncio do ministro.

Não é crível que o capitão não soubesse do acordo, depois de uma semana inteira de tratativas, de idas e vindas, e partindo de alguém que já demonstrou não ter autonomia alguma. Foi guindado ao posto para subscrever as determinações do chefe. Com tamanho carão, o que se espera agora de Pazuello, o incensado especialista em logística, é que se recupere prontamente e peça seu boné camuflado.

O pano de fundo dessa corrida é a disputa com Dória, que ele procura aprofundar na falta de uma pauta de confronto, desde que caiu no colo do Centrão. E acontece na semana em que uma força-tarefa trumpista aqui desembarca com a missão de impedir a participação d gigante chinesa Huawei no leilão das redes 5G – e de quebra sinalizar um acordo comercial mal ajambrado a fim de obter um handicap diplomático pra campanha do americano, que anda mal das pernas.

Tudo o que Bolsonaro conseguiu abrir uma guerra federativa, envolvendo governadores e secretários de saúde, como advertiu o governador do Maranhão, Flávio Dino. “Bolsonaro não pode dispor das vidas das pessoas para seus propósitos pessoais. Ele vai perder de novo, se insistir com mais essa agressão insana aos estados.” (…) “Vamos ao Congresso Nacional e à Justiça para garantir o acesso da população a todas vacinas.”

Ao longo do dia Bolsonaro voltou à cena para dobrar a aposta no confronto aberto com a anulação do acordo com a farmacêutica chinesa. “Toda e qualquer vacina está descartada. Tem que ter uma validade da Saúde e uma certificação por parte da Anvisa também.” (…) “Já mandei cancelar, o presidente sou eu, não abro mão da minha autoridade (…) Até porque estaria comprando uma vacina que ninguém está interessado nela, a não ser nós.”

O capitão não se importa em atropelar o bom senso, o conhecimento ou a própria língua portuguesa para impor sua otoridade, não importa o número de vidas que ainda possa custar. Cobrar lógica de um ser cujo universo é desprovido de lógica é bobagem.

Da mesma maneira é imaginar empatia por algo que o mundo desesperadamente espera de alguém que um dia ameaçou explodir uma adutora para ter seus interesses atendidos. Resta a canastrice habitual com que negacionistas como ele se apegam em busca de seu melhor papel.

E assim a nau capitânia da insensatez segue seu curso. De sua órbita lunar o ministro Marcos Pontes da Ciência e Tecnologia anuncia sinais de redução do contágio entre pacientes da Covid aplicados com o vermífugo Annita. Avanços.     

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