Os novos ventos do Sul

Há exatamente um ano Bolsonaro disse o seguinte: “Meu governo não pode deixar de se antecipar aos problemas Devemos sempre nos preparar para o pior para poder reagir com serenidade e objetividade.” O que seria o pior? “Algo semelhante ao que acontece no Chile.”

Alê

Naquela sexta-feira 25 de outubro, um milhão de chilenos saíram às ruas, fechando uma semana de protestos que sacudiram Santiago e prensaram Sebastian Piñera, que decidiu pedir a seus ministérios que disponibilizassem seus cargos.

No último domingo (25), o povo chileno tomou de novo as principais cidades do país para festejar a sua trajetória de luta. Com quase 80 % dos votos foi aprovada a criação de uma Assembleia Constituinte para elaborar uma nova constituição, derrubando a atual, que vigora desde 1980. É o fim do último bastião da ditadura pinochetista.    

O plebiscito trouxe algumas inovações. Para a composição da nova Assembleia ficam estabelecidas paridade de gênero (50% entre homens e mulheres) e cotas para representação dos povos indígenas. Serão 115 integrantes exclusivos, sem necessidade de filiação partidária, a serem eleitos no próximo 11 de abril e posterior aprovação e m novo referendo.

O foco da nova AC está em refazer as bases de um Estado de bem-estar social, com especial atenção para a reforma da Previdência e a substituição do modelo liberal que Paulo Guedes não cansa de perseguir por aqui.

Sobre os novos ventos do Sul, nenhuma manifestação do capitão. Veio à boca de cena seu alto-falante, o líder do governo na Câmara, Ricardo Barros, para expor as razões pelas quais ele acha o país “ingovernável”. “Devemos fazer um plebiscito, como fez o Chile, para que possamos refazer a Carta Magna e escrever muitas vezes nela a palavra deveres com a Nação.”

Afronta ao bom senso? Déficit no trato histórico e político, como sugeriu o ministro do TCU, Bruno Dantas? “Estudar um pouco de história e entender a transição democrática deles e a nossa seria útil. Só para começar.”

Partindo de hostes bolsonaristas, é possível supor um balão de ensaio. Se antes era rasgar a Constituição, agora é moldá-la à sua imagem e semelhança, oferecendo uma espécie de panaceia normativa para sacudir sua trupe daí em diante.

Melhor ficar com o ex-presidente do STF Ayres Brito: “Ingovernabilidade está em governar o País de costas para a Constituição. A Constituição é acima de tudo democrática. Fez da democracia o princípio dos princípios. É uma Constituição reconhecidamente em todo mundo filosoficamente humanista, e culturalmente civilizada.

Algo que está de fato a anos luz da compreensão do capitão e sua trupe.

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