Trampa à vista

Derrota iminente de Trump acontece no dia em que é oficializada a saída dos EUA do Acordo de Paris

Mal havia sido configurada uma virada em Wisconsin em favor de Biden, um dos estados cruciais na corrida presidencial americana, e Donald Trump anunciava que pediria a recontagem de votos. Em seguida, diante do avanço do democrata, avisou que entraria com o mesmo recurso em relação a Michigan e Pensilvânia, estados que juntos formam o bloco do Meio-Oeste, decisivo tanto para um como para outro.  

Donald Trump/ Valor Econômico-Globo

Os três estados compõem o Cinturão da Ferrugem, conhecido como tal pela decadência de sua economia, baseada principalmente em sua indústria pesada. Biden venceu nos dois primeiros, prescindindo da Pensilvânia. Neste, até o final da tarde de quarta-feira, Biden havia tirado uma diferença de nove pontos em relação à noite anterior, por conta dos votos enviados pelo correio – neste a ameaça passou a ser de ação para suspensão da apuração.

São justamente os votos via correio o alvo da fúria trumpista. Ainda na madrugada da terça, provavelmente diante de projeções que indicavam reviravolta no placar, Trump, em discurso da Casa Branca, disse que a continuidade da contagem dos votos fatalmente levaria à fraude na apuração. Diante disso, decidiu proclamar a si próprio presidente reeleito.     

“Isso é uma enorme fraude. É uma vergonha para o nosso país. Francamente, nós ganhamos esta eleição. Eles sabiam que não poderiam vencer e disseram vamos à Suprema Corte”.  

E, contrariando a si mesmo, depois de acusar o democrata de querer decidir nos tribunais, ele mesmo anuncia que vai levar a questão a Corte, que ele mesmo   

“Nós vamos à Suprema Corte, queremos que todos os votos parem, não queremos que os votos sejam encontrados até as quatro da manhã. É um momento triste.”

Ao longo do dia voltou à carga pelas redes para “estranhar” o acréscimo de votos que “magicamente” foram adicionados à coluna doe Biden, depois de ele ter praticamente consolidado uma vitória na noite anterior.

Já se falou muito a respeito dos transtornos da personalidade de Trump e da ruína que, em quatro anos ele abriu nas instituições republicanas e na própria democracia americana. Mas os episódios das últimas 24 horas parecem insuperáveis. Fazem uma síntese de sua passagem pelo governo americano, como a de um bandoleiro de filme B, capaz de transformar a Casa Branca na Casa da Mãe Joana.  

O problema agora são os desdobramentos das ações, que podem prolongar processo por semanas até que se possa decidir por critérios extra urna, já que ele adiantou que não vai reconhecer os resultados das urnas. Se vai conseguir é outra questão, mas até aí morreu Neves. Já fez o suficiente inflamar as ruas.

Curiosamente uma derrota coincide com uma data-chave para administração trumpista: 4 de novembro é o Dia D marcado para o desembarque dos Estados Unidos do acordo de Paris. Seu principal feito negacionista, que logo poderá ser anulado por Biden. Que assim seja..    

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