Um caldo difícil de engolir

“Chega uma hora uma hora em que o caldo entorna”, disse o general-vice Hamilton Mourão. Presidente do Conselho da Amazônia, Mourão se referia ao cenário dantesco na Amazônia verificado neste ano, que aponta para índices crescentes de desmatamentos, queimadas e invasões seguidas por garimpos ilegais.

A observação foi só para tentar eximir o Planalto da responsabilidade pela devastação. “O caldo entornou no nosso momento. Os problemas não aconteceram desde o dia 1º. de janeiro.” Certamente não. Mourão só se esqueceu de dizer o quanto seu governo contribuiu para a situação sem controle, a começar pelo desmanche dos sistemas de proteção ambiental.

A análise de Mourão foi feita em coletiva de imprensa em Manaus, durante parada de um show de relações públicas destinado a responder à pressão da comunidade internacional pelo estrago causado à floresta. O show, uma espécie de greenwashing oficial, compreende um tour aéreo de três dias pela região, com representações diplomáticas de dez países a bordo, e com direito a atrações turísticas, como o Encontro das Águas dos rios Negro e Solimões e até uma visita ao zoológico.

Evidentemente a rota desse voo da alegria passa longe do fogo. Mas até aí nada demais, até porque pra constatar o estrago bastaria constatar a fartura de dados e imagens fornecidos por satélites. Embarca na onda quem quer.

Observatório do Clima

Em meio ao tour, porém, um novo dado vem para entornar o caldo de vez e pode pesar na conta do capitão mais na frente. Nessa sexta (6) foi divulgada mais uma edição, a oitava, do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases do Efeito Estufa (SEEG), indicando que o país registrou um aumento de 9.6% dessas emissões em relação ao ano passado.

O estudo é produzido por um conglomerado de 56 ONGs por iniciativa do Observatório do Clima e sinaliza que dificilmente o Brasil cumprirá sua meta definida pela Política Nacional sobre Mudança do Clima. O PNMC é o compromisso assumido junto a ONU de reduzir as emissões dos gases do efeito estufa entre 36,1% e 38.9%.

De acordo com o relatório, o aumento das emissões foi puxado basicamente pelo desmatamento, seguido pela atividade agropecuária. Um combo responsável pela 72% das emissões em 2019. É o maior aumento registrado desse 2003. Com isso o Brasil coloca-se como o quinto maior emissor de gases do efeito estufa.

E para 2020 está previsto um acréscimo de 20% nessas emissões. Algo que vai na contramão do que acontece no mundo, quando a pandemia refreou a economia global, reduzindo o índice dos gases poluentes em até 7%.

Em uma década, desde a regulamentação do PNMC, em 2010, os gases lançados na atmosfera tiveram um aumento de 64%. A meta prevista era de redução do desmatamento na Amazônia em 80% este ano, comparada à média registrada entre 1996 e 2005.

Esse é um caldo difícil de engolir e que vai acabar saindo muito caro para o país.

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