Xô baixo astral!

Era início da tarde de sábado (7), quando a apuração apontava para um ponto sem retorno na disputa pela Casa Branca. Joe Biden ultrapassava o número mínimo de 270 delegados indicados para o Colégio Eleitoral. E assim vencia a corrida presidencial dos Estados Unidos, tornando-se o 46º presidente de sua história.

Charge: Carlos Latuff

Trump nessa hora jogava golfe em seu campo particular, o Trump National Golf Club. Antes disso, dava suas tacadas pelo Twitter, proclamando-se o vencedor da eleição e anunciando que iria até a Suprema Corte para reverter o resultado – segundo ele, baseado em votos “ilegais”, contabilizados fora do prazo e suspeitos de terem sido fraudados.

Como se sabe, meses antes da eleição, Trump já vinha armando a narrativa da fraude, calçado em um esquema de judicialização montado para melar o jogo assim que os resultados começaram a pintar a favor de Biden. Não há prova ou indício de que houve uma qualquer armação conspiratória pelos democratas.

Mas Trump continua nessa toada e não dá pinta de que vai largar o osso. Não é só seu futuro político que está em jogo, apesar do cafife eleitoral de 70 milhões de votos que abocanhou. Sem a imunidade do cargo, o bárbaro mandachuva americano vai ter que encarar acusações de lavagem de dinheiro, além de fraudes bancárias, fiscais e também eleitorais.

Assim sua estratégia de contestar resultados e pedir recontagem de votos (sua campanha tem feito vaquinha pra levantar 60 milhões de dólares para isso) deve se estender até o dia 8 de dezembro, que é a data limite para que os estados nomeiem os delegados no Colégio Eleitoral.

Isso porque pela legislação eleitoral americana, em caso de impasse, as assembleias legislativas têm a prerrogativa de nomeá-los, mesmo contrariando. E algumas delas têm maioria republicana. E há chance de isso parar na Suprema Corte.

Para que sua sanha golpista prosperasse, porém, Trump teria que contar também com algum fator de suporte, como o do establisment americano. Mas nem mesmo os republicanos, já rachados, parecem muito dispostos a botar alguma ficha na casa trumpista.

Muito menos o mercado: as bolsas pelo mundo afora decolaram – embaladas ainda pelo andamento dos testes da vacina contra Covid 19, produzida pela americana Pfizer em parceria com a alemã BioNTech.

Restaria o apoio dos militares, conforme cartilha de golpistas clássicos de Latinoamérica. Mas retroceder ao grau da republiqueta de bananas não é algo plausível de ocorrer na terra do Tio Sam, ainda que uma tacada dessa certamente esteja entre os desejos inconfessáveis de um delirante Trump.

Ainda nessa segunda, ele demitiu o secretário de Defesa, Mark Esper. Lembra o Uol que Esper caiu em desgraça depois que se manifestou contra o uso das Forças Armadas para repressão de protestos de rua, durante manifestações antirracistas deste ano.     

Já no front planaltino brasileiro, a ordem é fazer boca-de siri sobre o cenário político-eleitoral americano. Bolsonaro diz que só vai se pronunciar oficialmente e reconhecer a vitória de Biden quando cessarem as disputas judiciais. Ou seja, vai bancar a aposta tresloucada de Trump.

Um tiro diplomático que, como prevê gente da área, pode sair pela culatra do capitão.        

Deixe uma resposta