Mais uma (infâmia) de Jair

Fatos insólitos e controversos, associados a uma tragédia, cercam a suspensão dos testes da vacina Coronavac por parte da Anvisa. Desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac, em parceria com o Instituto Butantan, o imunizante é objeto de disputa política entre o governo Bolsonaro e o de São Paulo já há algum tempo. Mas nesta terça (10) alcançou um grau de irracionalidade e politização inimagináveis.

O protagonista dessa história tem nome, sobrenome, falsa patente e endereço conhecidos, como é sabido pelo país inteiro.

Recapitulando. Na noite de segunda (9) a Anvisa determinou a paralisação da terceira fase de testes da vacina, horas depois que João Dória anunciava a chegada do primeiro lote de 120 mil doses proveniente da China em dez dias.

Segundo o comunicado da Agência, a paralisação se devia a um “advento adverso grave”, sem qualquer informação adicional que pudesse embasar a determinação. Apenas listava como “eventos adversos graves” consequências que variavam de invalidez persistente a morte.

Contatado, o presidente do Instituto Butantan, Dimas Covas, direto da bancada do Jornal da Cultura, onde se apresentava como convidado, se dizia “surpreso” com a decisão e assegurava que o caso como havia sido relatado a Anvisa não guardava relação alguma com a vacina.

Foi o suficiente para que baixasse uma imensa sombra de suspeita sobre a questão. No dia seguinte, uma entrevista coletiva com integrantes da área de saúde paulista, comandada pelo secretário Jean Gorintchein, ainda deixava no ar a possibilidade de uma decisão de fundo político, ainda que se isentasse, a princípio, a área técnica da agência, com quem haviam se reunido pela manhã.

Durante a tarde, quando o diretor-presidente da Anvisa, o contra-almirante Antônio Barra Torres, ladeado por dois diretores veio a público prestar esclarecimentos em outra coletiva de imprensa, já se sabia que o caso que havia provocado a intervenção fora suicídio de um voluntário.

E mesmo diante do conhecimento de tal fato (que evidentemente elimina qualquer possibilidade de causa e efeito) Torres, ladeado por dois diretores, anunciava que manteria a decisão tomada na véspera de paralisar os testes, com respaldo do colegiado interno.

A alegação principal era que os dados fornecidos pelo IB eram insuficientes e a Anvisa deveria se basear em protocolos acatados pela comunidade internacional. Certamente – não dá para esperar nada diferente de uma agência reguladora.  

O rigor protocolar defendido por Torres para referendar a decisão da Agência, porém, pouca relação guardou com a do personagem que desfilava de braços dados com Bolsonaro em atos pró-governo ignorando medidas sanitárias protocolares como o uso de máscara.

O trâmite do processo e os procedimentos que levaram à tomada de posição pela Anvisa também não se pode dizer que teve o mesmo rigor. O relatório do IB chegou à Anvisa no dia 6, dentro do período previsto protocolarmente. Mas com a pane no sistema que afetou a área da saúde, a Anvisa só tomou conhecimento do fato no começo da noite do dia 9. Detalhe: antes de ter acesso ao relatório, a diretoria da Agência foi alertada da comunicação do IB pelo próprio Ministro do Saúde, do general Pazuello, aquele que faz o que o chefe manda. Por isso provavelmente o capitão já sabia do “evento” já noite de segunda, em sintonia com o almirante.

O período entre a recepção do comunicado e a decisão seguida de sua divulgação pela imprensa não foi além de duas horas. Dizer que é um tempo exíguo para avaliação de um tema de interesse planetário é pouco. Tampouco se deu crédito ao relato das autoridades médica paulistas, que buscavam preservar o sigilo do voluntário ao não detalhar o “evento”.             

Mesmo para um leigo tão insustentável era a posição da Anvisa que sua determinação de manter a paralisação não foi além de algumas horas. Pareceres da Comissão Nacional de Ética e Pesquisa (Conep) e do Comitê Internacional Independente em disposições contrárias recomendavam a retomada dos ensaios clínicos da Coronavac.

A elas se seguiram despacho de Ricardo Lewandowski do STF, cobrando explicações da Anvisa em 48 horas sobre a Coronavac e um pedido do MP para que o Tribunal de Contas investigue se houve interferência ideológica. Diante da reação a Anvisa decidiu revogar a suspensão na manhã desta quarta (11).     

Em condições normais de pressão e temperatura o processo teria seguido seu normal. E o que motivou toda a celeuma? Voltamos ao início. Em resposta ao um internauta sobre eventual aquisição da Coronavac, o capitão cometeu o seguinte: “Morte, invalidez, anomalia. Esta é a vacina que o Doria queria obrigar todos os paulistanos a tomá-la” (sic). “O presidente (Bolsonaro) disse que a vacina jamais poderia ser obrigatória. Mais uma que Jair Bolsonaro ganha”.

Entre as infâmias já perpetradas pelo capitão, essa figura entre as insuperáveis. Só mesmo uma mente perturbada para urdir algo tão demencialmente ignóbil. Numa só tacada Bolsonaro pisou na ciência, desacreditou a Anvisa e afrontou a população de seu país. É mais uma que Jair ganha.  

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