O Amapá às escuras e a escuridão reinante

O Amapá vive há mais de dez dias sem luz. Não é possível imaginar a vida sem energia elétrica. É preciso viver em tais condições para se ter a dimensão do que isso representa. Relatos de habitantes da capital Macapá e do interior que tem pontuado na mídia expressam uma parte do drama diário de suas vidas.  

O apagão sem precedentes afeta treze entre os seus dezesseis municípios. Para a quase totalidade de sua população de cerca de 830 mil habitantes o sentido da vida passou a ser superar o caos advindo da falta de energia, que afeta o fornecimento de água, de combustíveis, de alimentos. E como tudo isso impacta a rede hospitalar, de comunicações e bancária.

Desde o dia 3 assim segue a vida no Amapá, desde que um incêndio destruiu a principal subestação de energia do estado. A possibilidade de um raio ter sido o causador foi descartado há três dias, quando ainda se contava com uma perspectiva inicial de se ter o sistema restabelecido em quinze dias.

Nesta sexta-feira (13), a má notícia veio como a confirmar o mau agouro que a data carrega: a Companhia de Eletricidade do Amapá prevê que o problema só será sanado em mais 13 dias. Seria o tempo estimado para que um transformador despachado do sul do estado, cumpra um trajeto de 265 quilômetros até a capital. Uma perspectiva mais que sombria.  

E o poder público não dá alternativa para amenizar o sofrimento da população, que tem convivido há com rodízio errático, que penaliza pela definição dos turnos de vigência do racionamento segmentos da população. E não resolve a situação. Restou à população protestar erguendo barreiras de fogo como interdição de ruas da capital. Até que ponto isso seria suportável – ou tolerável – em qualquer no Sul maravilha ou outra parte do país?

O capitão tratou de chutar o problema pra bem longe. No começo da semana, disse que a energia do Amapá “não é responsabilidade nem do Estado da União”, mas da terceirizada responsável pelo setor. E ainda sugeriu a possibilidade de sabotagem com fins eleitoreiros – o irmão do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, é candidato pelo DEM.          

Convém lembrar que essa situação se verifica no Extremo norte do país, onde a temperatura média pode chegar aos 36º C, no período mais quente, e a umidade relativa do ar a 80, 90% – nesta sexta a máxima prevista era de 38ºC. E na mesmo capital

Trecho de um diário de uma semana do apagão escrito pela jornalista Dulcivânia Freitas, especialmente para a revista Piauí, dá ideia do trauma vivido pelos macapaenses. “Na madrugada, novos estrondos e clarões, e imaginei as trombetas do apocalipse na sequência. Naqueles instantes também me pus a pensar nas aflições dos bebezinhos, obesos, idosos, doentes de catapora, e nos animais domésticos que tanto sofrem com esses episódios. A panela de pressão explodiu. Espero que o apagão, de algum modo, ajude a descortinar a escuridão e a exclusão em que vivem boa parte dos amapaenses.”

Para aliviar o pesadelo das parcelas mais vulneráveis da população do Amapá, juiz da 2ª. Vara Federal acatou ação popular e aprovou pagamento de mais duas parcelas do auxílio emergencial. E o ministro Luís Roberto Barroso deferiu pedido de adiamento das eleições municipais em Macapá – considerando que no restante do estado, segundo o TRE local, “a situação de segurança do eleitor poderá ser mantida sob controle” – não serão considerados palpites em contrário.

No restante do País os eleitores irão às urnas normalmente –em busca de uma luz, espera-se, nessa escuridão reinante.    

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