Madeiraaaa!

Tão à vontade quanto no cercadinho do Palácio da Alvorada, Bolsonaro usou a reunião de Cúpula do Brics para tentar dividir a responsabilidade pela devastação da Amazônia com países que atacam a política ambiental do governo. Em tom de ameaça prometeu tornar pública próximos dias uma lista com os países receptores de madeira brasileira extraída ilegalmente da região.

Com mais essa bravatinha diplomática tudo que o capitão conseguiu fazer foi jogar luz a uma chaga brasileira, consequência direta da omissão voluntária e da incompetência em gerir os recursos naturais do país.

A jogada do capitão tem por base uma operação da Polícia Federal, em curso há três anos e que resultou na apreensão de uma carga ilícita de 2400 m³, destinada a empresas de oito países europeus, incluindo Alemanha e França, com os quais Bolsonaro tem batido de frente na questão ambiental.

Bolsonaro mira no receptor, mas omite o processo fraudulento deste comércio, viciado desde a origem e facilitado pela desconstrução das estruturas de proteção, fiscalização e controle ambiental – e que ao final tem como beneficiário majoritariamente o próprio mercado interno.

Sabe-se de qualquer maneira – como é fácil imaginar em trâmites burocráticos em que a ordem é fazer passar a boiada – que a documentação da Amazônia é validada na base do “esquenta a mão”. Conclui-se daí que na ponta do processo o carimbo da certificação é a certeza de passe livre.

Há exatamente um ano, por sugestão do setor madeireiro, o capitão defendeu a liberação da exportação da madeira in natura, alegando que seria “melhor exportar de maneira legalizada do que clandestina”, o que na prática significa oficializar o assalto ao patrimônio natural. Reportagem do Estadão na época já apontava tendência de aceleração do desmatamento em áreas protegidas e indígenas do que no resto da Amazônia.

Em março último o Ibama decidiu extinguir a autorização expedida pelo ele próprio, conforme a lei, depois de denúncias que exportações de madeira estavam acontecendo rodo sem a licença. E Ricardo Salles, o sinistro do MMA, tratou de passar a motosserra na questão, ao demitir o responsável pelo setor de monitoramento do uso da biodiversidade, que se posicionou contra a medida.

Some-se a isso o arsenal de investidas do governo contra qualquer forma de sanção contra aqueles que cometem crimes contra a floresta. Diante de tamanho passivo ambiental, para o qual o capitão tem dado uma contribuição transamazônica e agora fez questão de trazê-la pra boca do palco, voltar à querelinha internacional que ele arrumou não vai ser fácil.

Como resumiu o próprio presidente da Associação de Exportadores de Madeira do Pará, ao tentar peitar os europeus atitou contra a própria base. “O Bolsonaro, gaiato, pegou e soltou essa bomba [da PF]. É um tiro no pé e vai atrapalhar muito o comércio da madeira internacional.” Que assim seja.

Madeiraaaa!

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